
A honraria tinha sido aprovada na terça anterior. Unanimidade. Nem os adversários votaram contra, o que por si só já devia ter servido de alerta — quando todos concordam com pressa, é porque ninguém leu o papel. Levaram uma semana para ler o papel.
Entre uma terça e outra, o mundo fez o que costuma fazer: cobrou. Chegaram as assinaturas, a primeira contra, depois a segunda a favor, cada uma achando que estava defendendo a civilização. Chegaram os grupos de WhatsApp, onde todo mundo é jurista. Chegou o plenário cheio, com cartazes e palavras de ordem e aquele cheiro peculiar de humanidade concentrada num espaço pequeno.
Vieram então os discursos. Foram oito, e todos disseram a mesma coisa de maneiras diferentes, que é o que os discursos fazem desde que o mundo é mundo.
— Cassar não é censurar — explicou um, com a serenidade de quem acabou de descobrir a frase no caminho.
— A Casa é soberana — ponderou outro, sem esclarecer se soberania inclui voltar atrás.
Um terceiro falou em liberdade de expressão. O quarto falou em dignidade do trabalhador. E assim foram, alternando, cada um convicto de que sua indignação era a única legítima, até que o nono pediu a palavra e disse que estava tudo muito claro. Não estava.
Quando chegou o resultado — nove a três —, houve palmas de um lado e xingamento do outro. A democracia é isso: dois barulhos ao mesmo tempo, e a ata registrando apenas um.
O autor do projeto declarou que não se arrependia nem um minuto. Foi generoso da parte dele. Minuto é uma medida curta, e a política costuma pedir prazos bem mais elásticos.
O detalhe é que ninguém mudou de opinião. Os nove já pensavam o que pensavam antes; os três também. A única coisa que mudou foi a aritmética e é disso que se faz, na maior parte do tempo, o que chamamos de história.
O cidadão que não é mais cidadão acompanhou a votação do plenário. Pela expressão, parecia um homem olhando um trem que já passou e que ele por algum motivo ainda espera.
No fim, sobraram os dois títulos de Cidadão Guaçuano — o de papel, que foi revogado, e o outro, o que o povo dá e tira nas redes, e sobre o qual nenhuma câmara tem competência
Mín. 16° Máx. 22°