
Quem é a pessoa que todos procuram quando a equipe trava, o cheve explode e alguém sai da reunião em silêncio? Provavelmente uma mulher. Não por sorte. Não por natureza. Por prática.
Um estudo divulgado nesta segunda (20) por pesquisadores da Universidade de Limerick, na Irlanda, e da Universidade de Zurique, na Suíça, e republicado pela Folha por meio do The Conversation, analisou quase três décadas de pesquisas — de 1995 a 2023 — em 76 países, com mais de 600 mil pessoas. A conclusão confirma o que a psicologia popular já tratava como fato: em média, as mulheres pontuam mais alto em inteligência emocional que os homens.
A vantagem, porém, tem endereço certo. Ela se concentra na parte da equação que diz respeito aos sentimentos dos outros: reconhecer o que alguém sente, entender o motivo e ajudar a lidar com isso. A criança em crise de choro, o colega calado depois que a ideia dele foi rejeitada, a negociação esquentando — para esses episódios, os dados apontam, as mulheres chegam mais preparadas.
Antes que alguém corra para a biologia, os autores cravam: a diferença é menor em crianças do que em adultos e diminuiu ao longo das três décadas analisadas. Padrão estranho para algo determinado no nascimento. Muito coerente, no entanto, com algo que se aprende repetindo — meninas são criadas para lidar com as emoções junto com os outros; meninos, para suprimi-las. Uma meta-análise de 2019, com 58 estudos, fecha a conta: inteligência emocional se treina, e o gênero não interfere na eficácia do treino.
Aqui mora o desconforto. Quando a habilidade é tratada como "jeito de mulher", ela vira obrigação natural: a colega que ameniza as tensões passa a ser cobrada por isso todos os dias, sem que apareça em uma única linha da avaliação de desempenho. As organizações se beneficiam desse trabalho todos os dias e o remuneram, na prática, com silêncio.
A receita dos pesquisadores é dupla: nomear e recompensar esse trabalho nas promoções e treinar todos os funcionários, sem exceção de gênero. A pessoa a quem todos recorrem quando as coisas ficam difíceis, lembram os autores, provavelmente só teve mais treino. O problema é que os outros nunca foram convidados para a aula.
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