
Era domingo, a mesa estava posta para o almoço: macarronada e um frango assado porque domingo é dia de comer macarrão e frango. Ela olhava o celular. Ele olhava o celular. Os dois olhavam o celular e o almoço ia esfriando.
— Caiu — disse ela, sem tirar os olhos da tela.
— Caiu o quê?
— O canal. O Exército.
— Exército? — ele ergueu a cabeça. — Que exército?
— O do Lula. Três milhões de pessoas. Caiu.
Ele pensou. Três milhões de pessoas num grupo de WhatsApp. Deve ser o maior condomínio do país, pensou, mas não disse. Disse:
— E quem derrubou?
— Um juiz.
— E agora?
— Agora outro juiz botou de volta.
— Dois juízes?
— Dois. Um derruba, o outro restaura.
— Quanto tempo levou? — perguntou.
— Quarenta e um minutos.
— Quarenta e um minutos para derrubar e botar de volta?
— Quarenta e um minutos entre uma coisa e outra.
— Quem ganhou? — perguntou.
— Ninguém. O canal voltou. O juiz ficou com a razão. O outro juiz ficou com a razão. Todo mundo ficou com a razão.
— Então ninguém perdeu?
— Ninguém perdeu.
Ela riu. Ele riu. Os dois almoçaram.
Depois, no sofá, ela voltou ao celular.
— Caiu de novo — disse.
— De novo?
— Não, mentira. Está lá. Três milhões de pessoas, todas obedecendo ordens sem examinar.
— Sem examinar o quê?
— Nada. É isso. A ordem é não examinar.
Ele coçou a cabeça. Três milhões de pessoas, pensou.
No meio de tanto exército, de tanta ordem, de tanto juiz com razão.
E o país, refletiu ele, é sempre um almoço de domingo porque domingo é dia de comer macarrão e frango.
Mín. 18° Máx. 28°