
MOGI GUAÇU – Há uma pergunta incômoda que atravessa "Uma longa órbita", primeiro romance de Jana Bianchi (Editora Aleph, 240 páginas, R$ 54,90): o que faz uma experiência ser real? A bióloga Tarsila passa os dias numa estação orbital e os "dias" numa superfície distante, habitando um corpo sintético chamado gaiato. Sente o toque, o cheiro, o sabor dos alimentos a centenas de quilômetros do próprio corpo. A resposta que o livro constrói é delicada e desconcertante: real é o que nos conecta e isso não depende de matéria.
A trama é enxuta e generosa. Tarsila é convocada a investigar uma crise no assentamento científico de Tau Ceti f, planeta apelidado de "Toró" por causa das chuvas constantes: seres microscópicos, os aurélios, começam a bloquear e corroer os dutos de captação de água, ameaçando a base humana. Como cresceu sob baixa gravidade, a bióloga não pode descer ao planeta e transborda a própria consciência para um gaiato, um corpo artificial andrógino, enquanto se envolve com o astromicrobiologista Nero.
O que poderia ser só um mistério científico vira, nas mãos de Bianchi, um romance sobre isolamento. Tarsila está sozinha na estação; na superfície, mesmo dentro do corpo artificial, sente-se separada e evita se envolver — uma defesa contra a despedida que sabe que virá. Aos poucos, descobre que todos ao redor carregam alguma forma de solidão autoimposta, e que ali se forma uma comunidade. A frase de Metzara, chefe da pesquisa, resume o espírito do livro: "Difícil mesmo é a saudade, esse mal que só o reencontro cura."
A autora, que escreveu a obra originalmente em inglês e depois a traduziu e ampliou em português, faz da cultura brasileira um personagem. Tarsila vem de uma ancestralidade brasileira; Nero cita bordões de telenovelas clássicas; há até uma "bossa novíssima" com letra espacial. É um gesto raro na ficção científica nacional: não usar o Brasil como cenário exótico, mas como matéria viva do futuro.
O ponto mais ousado, porém, é a recusa ao pessimismo. Bianchi cita Becky Chambers como referência, e o livro bebe do hopepunk — a corrente que imagina futuros esperançosos diante das adversidades. Não há vilões nem conspirações; os problemas se resolvem com diálogo, empatia e bom senso. A humanidade, aqui, aprendeu com os erros e não pode se dar ao luxo de perder mais um planeta. A crítica do jornal O Globo, que cotou a obra como "ótimo", acerta ao notar que a narrativa rejeita o pessimismo "sem ingenuidade": sempre causaremos impacto ambiental, o que muda é a capacidade de reagir e mitigar.
Há, claro, um risco nessa aposta. Um futuro sem conflito pode soar, para leitores acostumados ao cinismo do gênero, quase ingênuo. Mas Bianchi equilibra a esperança com a dor: o romance entre Tarsila e Nero enfrenta o dilema do desejo físico quando a mente habita um corpo artificial, e a pergunta sobre o que esperar quando a missão terminar. A saudade, esse "mal que só o reencontro cura", é o que dá peso real à leveza do tom.
"Uma longa órbita" marca também um movimento editorial: é uma das primeiras ficções científicas de autores nacionais publicadas pela Aleph, editora que por anos se dedicou a clássicos estrangeiros. A estreia de Jana Bianchi, ao lado de Lady Sybylla, Alexey Dodsworth e Felipe Castilho, anuncia uma geração brasileira que rompeu a barreira da língua e agora ocupa também o próprio mercado. Um começo promissor — e, como o próprio livro ensina, um começo que vale a pena habitar.
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