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“Uma longa órbita”: a ficção científica que aprendeu a ter esperança

Na estreia de Jana Bianchi na ficção longa, o futuro deixa de ser uma ameaça para virar um lugar habitável

10/10/2026 às 16h41
Por: Luís Braga Fonte: Por Luís Braga
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“Uma longa órbita”, de Jana Bianchi, é a ficção científica que aposta na esperança (Crédito: divulgação)
“Uma longa órbita”, de Jana Bianchi, é a ficção científica que aposta na esperança (Crédito: divulgação)

MOGI GUAÇU – Há uma pergunta incômoda que atravessa "Uma longa órbita", primeiro romance de Jana Bianchi (Editora Aleph, 240 páginas, R$ 54,90): o que faz uma experiência ser real? A bióloga Tarsila passa os dias numa estação orbital e os "dias" numa superfície distante, habitando um corpo sintético chamado gaiato. Sente o toque, o cheiro, o sabor dos alimentos a centenas de quilômetros do próprio corpo. A resposta que o livro constrói é delicada e desconcertante: real é o que nos conecta  e isso não depende de matéria.

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A trama é enxuta e generosa. Tarsila é convocada a investigar uma crise no assentamento científico de Tau Ceti f, planeta apelidado de "Toró" por causa das chuvas constantes: seres microscópicos, os aurélios, começam a bloquear e corroer os dutos de captação de água, ameaçando a base humana. Como cresceu sob baixa gravidade, a bióloga não pode descer ao planeta  e transborda a própria consciência para um gaiato, um corpo artificial andrógino, enquanto se envolve com o astromicrobiologista Nero.

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O que poderia ser só um mistério científico vira, nas mãos de Bianchi, um romance sobre isolamento. Tarsila está sozinha na estação; na superfície, mesmo dentro do corpo artificial, sente-se separada e evita se envolver — uma defesa contra a despedida que sabe que virá. Aos poucos, descobre que todos ao redor carregam alguma forma de solidão autoimposta, e que ali se forma uma comunidade. A frase de Metzara, chefe da pesquisa, resume o espírito do livro: "Difícil mesmo é a saudade, esse mal que só o reencontro cura."

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A autora, que escreveu a obra originalmente em inglês e depois a traduziu e ampliou em português, faz da cultura brasileira um personagem. Tarsila vem de uma ancestralidade brasileira; Nero cita bordões de telenovelas clássicas; há até uma "bossa novíssima" com letra espacial. É um gesto raro na ficção científica nacional: não usar o Brasil como cenário exótico, mas como matéria viva do futuro.

O ponto mais ousado, porém, é a recusa ao pessimismo. Bianchi cita Becky Chambers como referência, e o livro bebe do hopepunk — a corrente que imagina futuros esperançosos diante das adversidades. Não há vilões nem conspirações; os problemas se resolvem com diálogo, empatia e bom senso. A humanidade, aqui, aprendeu com os erros e não pode se dar ao luxo de perder mais um planeta. A crítica do jornal O Globo, que cotou a obra como "ótimo", acerta ao notar que a narrativa rejeita o pessimismo "sem ingenuidade": sempre causaremos impacto ambiental, o que muda é a capacidade de reagir e mitigar.

Há, claro, um risco nessa aposta. Um futuro sem conflito pode soar, para leitores acostumados ao cinismo do gênero, quase ingênuo. Mas Bianchi equilibra a esperança com a dor: o romance entre Tarsila e Nero enfrenta o dilema do desejo físico quando a mente habita um corpo artificial, e a pergunta sobre o que esperar quando a missão terminar. A saudade, esse "mal que só o reencontro cura", é o que dá peso real à leveza do tom.

"Uma longa órbita" marca também um movimento editorial: é uma das primeiras ficções científicas de autores nacionais publicadas pela Aleph, editora que por anos se dedicou a clássicos estrangeiros. A estreia de Jana Bianchi, ao lado de Lady Sybylla, Alexey Dodsworth e Felipe Castilho, anuncia uma geração brasileira que rompeu a barreira da língua e agora ocupa também o próprio mercado. Um começo promissor — e, como o próprio livro ensina, um começo que vale a pena habitar.

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Sobre o blog/coluna
O Luís Braga é um blog de notas e colunas sobre política, arte, saúde e literatura, escrito a partir do interior de São Paulo para o leitor da região de Campinas. No ritmo curto de quem comenta o dia a dia, o blog acompanha os bastidores da política, celebra a cultura que se faz aqui, traduz as questões de saúde em informação prática e abre espaço para a leitura e a literatura. Assinado por Luís Braga, sociólogo e dramaturgo, com a colaboração de vozes convidadas, é um espaço de opinião, observação e boas histórias sobre o lugar onde vivemos.
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