
MOGI GUAÇU – Antes de abrir a caixinha, ela veste o uniforme: jaleco branco com um coração bordado e a roupa cor de laranja. Mesma roupa, mesma caixinha — personalizada, recheada de cordéis —, mas a sala nunca é a mesma. É assim que a cordelista Fátima Fílon, professora de Letras e Literaturas, atravessa escolas, hospitais e espaços culturais do interior paulista levando a tradição oral do sertão nordestino para dentro do coração das crianças.
"Sempre levando minha caixinha, personalizada, recheada de cordéis para atender alunos de idades variadas, bem como o tema proposto para o dia, a semana ou o mês", conta. "As crianças ouviam as histórias, faziam perguntas interessantes sobre os personagens, opinavam, aplaudiam com alegria contagiante, e em seguida já queriam escrever, contar, com olhinhos brilhantes, as próprias histórias."
O foco de quem ensina e o foco de quem inspira
Na fala da cordelista, há uma distinção precisa entre os dois papéis que ela ocupa. Professora, seu foco é o ensino, a aprendizagem, a avaliação e a formação contínua. Palestrante, seu foco muda de rota. "Sempre foi inspirar, provocar com temas pertinentes ao momento e isso é maravilhoso, é arte!", resume.
Fátima é patronesse da Biblioteca Comunitária que leva seu nome, ex-presidente da Casa do Escritor de Mogi Guaçu, autora da letra do Hino à Academia Guaçuana de Letras e do livro "Retratos da Alma". Sua produção também ocupa vitrines culturais, como o Espaço Cultural da ACIMG, onde expõe seu trabalho.
Por que a rima conversa com a criança do interior
Nascido da tradição oral do Nordeste, o cordel encontra terreno fértil a quilômetros do sertão. Para a cordelista, a explicação está na natureza lúdica da forma. "No cordel a rima dá graça, leveza, ajuda muito na emoção, no sentimento, e a métrica dá cadência, musicalidade ao texto", explica. "As crianças gostam de brincar com as palavras, com as rimas; temas brincantes também são forte atrativo. Esse universo lúdico atrai e aproxima as crianças da leitura e da produção dos próprios cordéis."
Ela lembra que a arte, nascida "nos rincões do sertão nordestino", foi ganhando as cidades e hoje está nas capitais e grandes centros urbanos — presença viva também no interior de São Paulo.
As encomendas que atravessam a carreira
Escolas a procuram com frequência: temas alusivos às datas comemorativas, homenagens a patronos, professores e funcionárias em aposentadorias e despedidas. "São tantas histórias e tantos cordéis, fica difícil apontar o mais marcante", admite. Mas a memória guarda as grandes encomendas: o Armorial de Ariano Suassuna, para a Orquestra Sinfônica de Indaiatuba, a Corporação Musical Marcos Vedovello, a APAE e o ICA.
"Geralmente, os pedidos e contatos são feitos pela direção das escolas ou de seus professores de artes ou Língua Portuguesa, com os temas específicos, e trabalho com esmero para agradar", diz.
Cordel na alfabetização: o que o verso faz que o livro "comum" não faz
O cordel não é apenas literatura: é ferramenta pedagógica reconhecida. "Pesquisas nos mostram que muitas pessoas aprendiam a ler ouvindo e memorizando versos — essa aprendizagem acontecia fora da escola", recorda Fátima. "Hoje, o uso do cordel na alfabetização, em consonância com a BNCC, valoriza a cultura popular e favorece o desenvolvimento da leitura, da escrita e da consciência fonológica por meio de rimas, ritmos e brincadeiras com as palavras."
Fatima Fílon faz do famigerado grupo Teodoras do Cordel e da Academia Guaçuana de Letras (AGL).
O recado para pais e professores no mês das crianças
"Nesse mês da criança e em qualquer dia do ano, se puder contar uma história em cordel para seus filhos, sobrinhos, netos, afilhados ou alunos, leia e poderá sentir o quanto é divertido ler para eles. Isso é mágico e inesquecível nas memórias afetivas deles", aconselha. "Faça do livro um brinquedo, um grande vagão transportando as letrinhas."
A sugestão dela para começar tem sabor de descoberta: "Comecem contando que o cordel é um Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro. É brasileiríssimo, é nosso!"
A ponte que permanece
Entre a secular tradição oral do sertão e o cotidiano das salas de aula de Mogi Guaçu, Fátima Fílon construiu uma ponte viva e o mais revelador é o sentido da travessia: as crianças do interior paulista não apenas escutam; tornam-se, elas mesmas, autoras das próprias histórias. No mês em que se comemora o Dia das Crianças, a lição da cordelista permanece simples e profunda: a poesia também ensina a ler e, quem aprende com rima, dificilmente esquece.
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