
Entre o entusiasmo da troca e a conta que chega depois, a alternância de poder é um elogio ao sistema, não uma promessa ao bolso
A alternância de poder é o oxigênio da democracia. Quando um governo sai e outro entra, o sistema respira, renova-se, mostra que o cargo é transitório e que ninguém é dono do mandato. É bonito de ver, funciona como um mecanismo de saúde institucional. O problema é que a democracia aplaude de pé, enquanto o povo, sentado na arquibancada, espera o que vem depois do espetáculo.
O entusiasmo da troca é sempre maior do que a prova da melhora. Na véspera da eleição, a promessa é de que tudo vai mudar, de que a vida vai melhorar, de que o novo vai consertar o que o velho deixou. O eleitor compra a ideia, vota, comemora. Mas a alternância, por si só, não paga dívida, não abre hospital, não gera emprego. Ela apenas troca o nome na placa. O povo, que aplaudiu a mudança, descobre que a mudança não era o destino, era apenas o começo de outra espera.
Há quem confunda alternância com solução. É um erro de leitura comum. A alternância é um valor da democracia, não uma garantia de resultado. Ela impede o acúmulo de poder, corrige excessos, dá chance ao novo. Tudo isso é bom para o sistema. Todavia, o sistema não sente fome, não paga aluguel, não enfrenta a fila do posto de saúde. O povo sente. Para o povo, o que importa não é a troca em si, é o que a troca entrega. Quando a entrega não vem, a alternância vira apenas uma fotografia bonita no álbum da política.
Não se trata de desprezar o valor da mudança. Trata-se de não confundir o aplauso com o resultado. A democracia precisa da alternância para se manter viva, é verdade. Não obstante, o povo precisa de mais do que isso: precisa de resposta. A alternância faz bem à democracia porque renova o sistema; faz bem ao povo apenas quando o novo governo prova, na prática, que a troca valeu a pena. Antes disso, é só esperança, e esperança, como se sabe, não paga as contas.
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