
A foto é daquelas que não saem da cabeça: uma trabalhadora doméstica, de sandálias Havaianas nos pés, equilibrada no parapeito estreito de um apartamento na Avenida Delfim Moreira, na orla do Leblon, limpando as janelas do patrão com uma única mão firmada no batente. Sem capacete, sem cinto, sem nada. No endereço que reúne, talvez, o metro quadrado mais caro do Rio de Janeiro — quando não do Brasil.
O mais perturbador não é o flagrante. É a rotina. Segundo relatos registrados nas imagens, a cena se repete toda semana, no mesmo prédio, como se o calendário tivesse voltado meio século. Esse tipo de exposição era comum décadas atrás, quando os direitos das trabalhadoras domésticas eram letra morta. Hoje, a categoria tem garantias constitucionais desde a Emenda 72/2013, regulamentada pela Lei Complementar 150/2015 — jornada, FGTS e a obrigação do empregador de oferecer condições dignas de trabalho. Mas a lei, como se vê, não sobe o parapeito.
O contraste é difícil de engolir: o mesmo andar que exibe a riqueza do vidro polido sustenta, na borda dele, a precariedade de quem o mantém brilhando. A naturalização é parte do problema. Vizinhos veem, porteiros veem, o mercado imobiliário vende a vista e a cena vira paisagem. Não é isolada: sindicatos da categoria já denunciaram flagrantes parecidos em outros estados, com o alerta de que "a casa grande continua achando que vidas não valem nada".
A segurança de quem trabalha não pode depender da sorte de um equilíbrio. Num acidente, a responsabilidade recairia sobre quem contrata e a vida não teria preço de reparação.
Fica a pergunta, do alto do endereço mais caro do Rio: uma janela limpa vale uma vida? Talvez o pior seja isto: o vidro está tão polido que ninguém consegue mais enxergar através dele.
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