
Enquanto o país discute como apurar mortes de mulheres que tinham histórico de violência doméstica, a Baixa Mogiana acumula casos que ajudam a entender por que o tema é tão difícil de enfrentar. Levantamento feito pelo Zatum nas sete cidades da região mostra ocorrências graves registradas em 2026 e, ao mesmo tempo, estruturas de proteção que ainda lidam com o desafio de transformar abuso em prova.
O ponto de partida é o estudo de pesquisadores da Unicamp e da USP: entre 19 mulheres que morreram por suicídio em Campinas em 2019, 13 tinham histórico de violência por parceiro íntimo. A conclusão de suicídio, como alertam especialistas, não deve encerrar a investigação — é preciso examinar se houve indução, instigação ou auxílio, o que exige reconstruir um histórico de abuso nem sempre denunciado.
Em Itapira, a jovem de 19 anos morta a facadas dentro de apartamento no Parque Progresso, em maio, segue como o caso mais grave do ano — a dupla suspeita foi presa e o crime ocorreu após discussão. Em Santo Antônio de Posse, duas prisões por violência doméstica em menos de 48 horas, envolvendo mulheres agredidas com filhos no colo, levaram o caso a expor publicamente o drama vivido por vítimas. Em Holambra, a GCM registrou agressão a companheira no bairro Imigrantes.
Esses registros — boletins de ocorrência, medidas protetivas, prontuários — são exatamente a matéria-prima que a investigação nacional aponta como essencial. "O histórico de abuso justifica investigar, mas não basta para condenar pela morte", resume a jurista Alice Bianchini. "Ameaças e chantagens precisam ser examinadas como possíveis formas de indução ou instigação", complementa a promotora Karen Mazloum.
A rede local avançou em 2026. Mogi Guaçu inaugurou o Espaço Guardiã e mantém a Patrulha Guardiã da Mulher — que, segundo dados divulgados, já acompanhou 141 casos de medidas protetivas na cidade. A Casa da Mulher regional oferece 20 vagas de acolhimento para Mogi Guaçu e Mogi Mirim, com filhos e dependentes. Mogi Mirim aprovou o Protocolo Condomínio Seguro e instituiu a Rede Municipal de Atendimento à mulher vítima de violência. Itapira tem projeto municipal voltado a autores de violência doméstica, e Jaguariúna encaminhou projeto de conscientização para homens.
O maior gargalo, porém, é o mesmo apontado pela reportagem: a ausência de denúncias prévias. Medo, dependência e isolamento dificultam a procura por ajuda e, sem registros, a apuração depende de mensagens, testemunhos e documentos que nem sempre existem. Por isso o projeto de lei 2493/2026, da deputada Maria do Rosário, propõe diligências obrigatórias e a chamada autópsia psicológica em mortes de mulheres com indícios de contexto de violência, além de criar o crime de "suicídio feminicida", com pena de 12 a 30 anos.
Enquanto a lei não muda, a região segue no dilema de sempre: a violência que mais mata é a que menos se denuncia e a que menos se registra é a que mais precisa ser investigada.
Onde buscar ajuda
Mín. 17° Máx. 28°