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Quando a violência não deixa registro

Estudo com mulheres de Campinas aponta violência por parceiro em 13 de 19 suicídios; na região, casos graves e falta de denúncias prévias expõem o mesmo desafio de apurar o que ficou no silêncio

14/10/2026 às 12h00
Por: Luís Braga
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Sinal universal de ajuda (Crédito: Zatum Imagens)
Sinal universal de ajuda (Crédito: Zatum Imagens)

Enquanto o país discute como apurar mortes de mulheres que tinham histórico de violência doméstica, a Baixa Mogiana acumula casos que ajudam a entender por que o tema é tão difícil de enfrentar. Levantamento feito pelo Zatum nas sete cidades da região mostra ocorrências graves registradas em 2026  e, ao mesmo tempo, estruturas de proteção que ainda lidam com o desafio de transformar abuso em prova.

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O ponto de partida é o estudo de pesquisadores da Unicamp e da USP: entre 19 mulheres que morreram por suicídio em Campinas em 2019, 13 tinham histórico de violência por parceiro íntimo. A conclusão de suicídio, como alertam especialistas, não deve encerrar a investigação — é preciso examinar se houve indução, instigação ou auxílio, o que exige reconstruir um histórico de abuso nem sempre denunciado.

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Casos da região escancaram o ciclo

Em Itapira, a jovem de 19 anos morta a facadas dentro de apartamento no Parque Progresso, em maio, segue como o caso mais grave do ano — a dupla suspeita foi presa e o crime ocorreu após discussão. Em Santo Antônio de Posse, duas prisões por violência doméstica em menos de 48 horas, envolvendo mulheres agredidas com filhos no colo, levaram o caso a expor publicamente o drama vivido por vítimas. Em Holambra, a GCM registrou agressão a companheira no bairro Imigrantes.

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Esses registros — boletins de ocorrência, medidas protetivas, prontuários — são exatamente a matéria-prima que a investigação nacional aponta como essencial. "O histórico de abuso justifica investigar, mas não basta para condenar pela morte", resume a jurista Alice Bianchini. "Ameaças e chantagens precisam ser examinadas como possíveis formas de indução ou instigação", complementa a promotora Karen Mazloum.

O que a região já tem (e o que falta provar)

A rede local avançou em 2026. Mogi Guaçu inaugurou o Espaço Guardiã e mantém a Patrulha Guardiã da Mulher — que, segundo dados divulgados, já acompanhou 141 casos de medidas protetivas na cidade. A Casa da Mulher regional oferece 20 vagas de acolhimento para Mogi Guaçu e Mogi Mirim, com filhos e dependentes. Mogi Mirim aprovou o Protocolo Condomínio Seguro e instituiu a Rede Municipal de Atendimento à mulher vítima de violência. Itapira tem projeto municipal voltado a autores de violência doméstica, e Jaguariúna encaminhou projeto de conscientização para homens.

O maior gargalo, porém, é o mesmo apontado pela reportagem: a ausência de denúncias prévias. Medo, dependência e isolamento dificultam a procura por ajuda e, sem registros, a apuração depende de mensagens, testemunhos e documentos que nem sempre existem. Por isso o projeto de lei 2493/2026, da deputada Maria do Rosário, propõe diligências obrigatórias e a chamada autópsia psicológica em mortes de mulheres com indícios de contexto de violência, além de criar o crime de "suicídio feminicida", com pena de 12 a 30 anos.

Enquanto a lei não muda, a região segue no dilema de sempre: a violência que mais mata é a que menos se denuncia e a que menos se registra é a que mais precisa ser investigada.

Onde buscar ajuda

  • Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher, 24h
  • CVV 188 — Centro de Valorização da Vida, gratuito e sigiloso
  • DDM (Delegacia da Mulher) ou delegacia mais próxima, inclusive para denúncia anônima
  • Patrulha Guardiã / Espaço Guardiã em Mogi Guaçu e rede municipal em Mogi Mirim
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Luís Braga, blog
Sobre o blog/coluna
O Luís Braga é um blog de notas e colunas sobre política, arte, saúde e literatura, escrito a partir do interior de São Paulo para o leitor da região de Campinas. No ritmo curto de quem comenta o dia a dia, o blog acompanha os bastidores da política, celebra a cultura que se faz aqui, traduz as questões de saúde em informação prática e abre espaço para a leitura e a literatura. Assinado por Luís Braga, sociólogo e dramaturgo, com a colaboração de vozes convidadas, é um espaço de opinião, observação e boas histórias sobre o lugar onde vivemos.
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