
A equipe econômica da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) está fazendo as contas de um ajuste que, no papel, parece cirúrgico: conter as despesas obrigatórias da União até chegar a cerca de R$ 250 bilhões, o equivalente a 2% do PIB — boa parte do esforço que economistas dizem ser preciso para estancar a dívida pública.
O núcleo do plano mira as maiores rubricas do Orçamento. De um lado, desvincular os reajustes da Previdência Social e do BPC dos ganhos reais do salário mínimo, passando a corrigi-los apenas pela inflação (INPC). De outro, acabar com os pisos constitucionais que atrelam gastos com saúde (15% da receita corrente líquida) e educação (18% da receita líquida de impostos), corrigindo-os também pela inflação.
A campanha faz questão de um detalhe: a medida preservaria o valor real dos benefícios, respeitando cláusula pétrea da Constituição. O efeito, dizem, seria estancar o multiplicador do aumento acima da inflação sobre a folha — lembrando que, dos mais de 41 milhões de benefícios do INSS, cerca de 70% equivalem ao piso nacional.
As projeções do CDPP dão a dimensão do bolo: limitar o reajuste dos benefícios à inflação geraria economia acumulada de R$ 1,1 trilhão em dez anos — de R$ 15 bilhões no primeiro ano a R$ 238,5 bilhões anuais em 2035. Já a mudança nos pisos de saúde e educação, incluindo o Fundeb, projeta alívio de R$ 800 bilhões no mesmo período.
Nos bastidores, dezenas de especialistas — economistas, juristas e ex-integrantes do Ministério da Economia — preparam minutas de projetos e decretos para 2027. A estratégia prevê uma "Super PEC da Transição" logo após as urnas, no intervalo entre a eleição e a posse, em versão invertida da PEC de 2022: em vez de liberar gastos, cortá-los em até 2% do PIB.
A campanha, porém, baixou o tom. Em nota, afirma que "a orientação econômica da candidatura não é definida por relatos ou ilações de terceiros" e que as propostas não constam do plano oficial de governo. Ou seja: no palanque, o discurso é de cautela; nos bastidores, o tesouraço já tem planilha.
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