
A Academia Sueca anunciou, às 8h desta quinta-feira (8), o Nobel de Literatura 2026 para a canadense Anne Carson — e os jornalistas podem ir se preparando para o desafio do século: convencer a poeta avessa a entrevistas a dar uma palavra.
Carson, 76 anos, é celebrada justamente por isso: implodir as fronteiras entre os gêneros literários e transitar com invejável liberdade entre a narrativa, a poesia e o ensaio, sempre em diálogo apaixonado com os clássicos gregos. No Brasil, o público a conheceu em 2017, com "O método Albertine" (Jabuticaba), leitura de desejo a partir de Proust.
Sua obra mais célebre, "A autobiografia de vermelho", imagina Gerião — rapaz vermelho, alado e gay do século XX, sofrendo por amar o filho de Zeus. A peça ganhou duas adaptações teatrais no Brasil: a de Bruno Siniscalchi, em 2024, e a de Daniela Thomas, no início deste ano.
Avessa a perfis e holofotes — em 2013, contou ao New York Times uma experiência ruim com a imprensa e preferia não repetir —, Carson topa, às vezes, receber perguntas por escrito.
A tradutora Adriana Lisboa resume o fenômeno: "Carson é uma autora cujo pensamento é complexo, mas cuja forma e léxico são, muitas vezes, extremamente simples. Ela consegue conjugar elementos eruditos a detalhes cotidianos dos mais banais — Proust no original a uma xícara de Nescafé."
Antes dela, a única canadense laureada havia sido Alice Munro (1932-2024). Carson é a 18ª mulher a levar o prêmio e sucede o húngaro László Krasznahorkai. Os livros dela no Brasil são publicados por quatro editoras diferentes — sinal de que o público já tinha entendido, bem antes de Estocolmo, que ali morava uma vencedora.
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