
"Verity", adaptação do thriller de suspense de Colleen Hoover dirigida por Michael Showalter, chegou aos cinemas em 2 de outubro com Anne Hathaway, Dakota Johnson e Josh Hartnett no elenco. A premissa é um convite ao cinema de observação: uma escritora best-seller (Hathaway) fica paralisada e catatônica após um acidente de carro, e uma autora fracassada (Johnson) é contratada para terminar sua série, hospedando-se na casa isolada na neve e encontrando um manuscrito que acusa. Um corpo imóvel, uma paisagem branca, um segredo. Material de sobra para quem sabe olhar.
O problema, como costuma acontecer quando o cinema não confia no que vê, é que o filme recua de todos os seus melhores planos. A câmera enquadra bem a casa projetando-se na vastidão nevada, chega a usar um split diopter, aquela assinatura do gótico clássico. Mas usa o corpo parado de Verity como enigma, não como presença. Onde a crítica de um filme como "A Ostra e o Vento" pediria um plano longo diante do mar, aqui há pressa de explicar.
E o filme explica demais. O roteiro anuncia seus próprios jogos metaficcionais em diálogo, fazendo um personagem dizer que está sendo ambíguo. É o pecado capital de quem confunde subtexto com texto: o silêncio entre duas mulheres, uma muda e outra lendo sua confissão, seria o coração do filme, mas é trocado por palavras que resolvem o mistério na mesa.
Nem tudo é desperdício. O elenco trabalha bem a ambiguidade, jogando personagens que advogam por si mesmos como boas pessoas um instante antes de fazer algo horrível. Hathaway, em especial, entroniza a própria imagem pública, a mulher boa demais para ser verdade. E o filme mantém até o fim a recusa ao veredito moral sobre as duas mulheres, tratando a maternidade como zona de sombra, não como púlpito.
Mas a maquinaria de sustos cobra seu preço: um jump scare gratuito do garoto mordendo uma faca reduz o corpo infantil a efeito, e as cenas de sexo, mornas, não sustentam o rótulo de thriller erótico. A recepção traduz o meio-termo: "diversão pulp", celebra Matt Zoller Seitz no RogerEbert; "thriller erótico pálido", contra-ataca o Hollywood Reporter; "talvez a melhor adaptação de Hoover, o que não quer dizer muito", ironiza o AV Club.
"Verity" não é um filme contemplativo e não se propõe a sê-lo. A crítica justa é a que julga o que ele propõe: um potboiler erótico-gótico, executado de forma desigual, elevado pelo elenco e rebaixado pela necessidade de se explicar. Se Showalter tivesse calado os personagens uma vez ou outra, e deixado a neve e Hathaway falarem, teria um filme de verdade nas mãos, em vez de um enigma muito bem resolvido.
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