
Ele chegou a Mogi Guaçu em 1994, vindo de Santo André. Trouxe na bagagem um apelido de família, um punhado de rimas e a teimosia de quem aprendeu cedo que cultura não é enfeite: é porta de saída. Trinta e dois anos depois, quando o coração parou às vésperas do Dia de Finados, o homem que a cidade conhecia como Jamelão já não era apenas um agitador cultural. Era o nome por trás de um projeto que tirou adolescentes da rua pelo basquete, a voz que abria o sarau, o percussionista que sustentava o andamento do rap e o poeta que levava o verso até a sala de aula.
Antônio Carlos Moreira morreu no sábado, 31 de outubro de 2026, aos 57 anos, vítima de infarto, em Mogi Guaçu. Nasceu em 5 de agosto de 1969. Deixa família, amigos e uma cidade que, nas últimas horas, tem repetido uma única palavra nas redes sociais: presente.
Antes de ser Jamelão de Mogi Guaçu, ele era Antônio Carlos Moreira de Santo André. A mudança para o interior paulista em 1994 marcou o começo de uma trajetória que nunca separou arte de militância. Como ele mesmo se apresentava em escolas e auditórios: ativista cultural, palestrante, apresentador da cultura urbana, produtor.
A palestra que levava pelo Senac, em 2022, tinha um título que resumia tudo: "Declama-te ou te devoro — rimas transformando vidas". Ali estava sua tese. A poesia não é adorno; é ferramenta de sobrevivência.
Foi essa mesma convicção que o levou a integrar a Academia de Letras Guaçuana e a Associação dos Negros Guaçuana — dois espaços onde a palavra escrita e a memória da população negra da região encontravam, nele, um articulador incansável.
O Anjos da Rua nasceu da constatação óbvia de que a rua oferece o que a cidade não oferecia. O que começou como iniciativa de basquete e dança se transformou, sob sua idealização, numa ONG de educação, esporte e cultura voltada para jovens em situação de vulnerabilidade, com sede em Mogi Guaçu.
Quem passou pelo projeto não o descreve em termos de modalidade esportiva. Descreve em termos de vida.
"O projeto Anjos da Rua foi muito mais do que um projeto de basquete e dança. Foi um projeto de transformação de vidas, que abriu portas, mostrou caminhos e ajudou muitos jovens a se afastarem das ruas e das drogas. Eu sou uma dessas pessoas que levam um pouco dos seus ensinamentos para a vida. Foi através desse projeto que aprendi a praticar esporte, conheci o basquete e aprendi muito com você não só dentro da quadra, mas também como ser humano." — trecho de despedida publicado nas redes de Mogi Guaçu
A atuação ia além do esporte. O Anjos da Rua chegou a organizar, com apoio da Secretaria Municipal de Cultura, a etapa guaçuana do Prêmio Arte em Movimento, que em sua sétima edição — realizada em novembro de 2021 no Teatro Tupec — homenageou 120 artistas da região, entre eles o grupo itapirense Samba Black e o rapper Thiers. A escolha dos premiados passava por uma comissão, mas a régua era dele.
"Temos uma comissão que procura e avalia os talentos" — Antônio Carlos Moreira, em entrevista à Tribuna de Itapira em novembro de 2021.
Jamelão não era apenas o homem do projeto social. Era músico e músico de sustentação, daqueles que seguram o andamento enquanto a voz acontece.
No Grupo Inspirados, de rap nacional, formado em Mogi Guaçu em 2012, ele assinava a percussão. A formação, que chegou a seis integrantes, incluía Igor Siliano no teclado Luis Henrique, e Rodrigo Guaripuna no violão e na voz. A banda circulou com autoridade pela cena regional: em outubro de 2017, abriu a programação de aniversário de Holambra ao lado de atrações de Rio Claro e Artur Nogueira. Em 2022, o grupo levantou financiamento coletivo para gravar o EP "Certas Coisas".
Há uma coerência quase simbólica nessa escolha de instrumento. O rap nacional, no imaginário apressado, seria o hip hop da programação eletrônica; o tambor seria o passado. Jamelão fez do atabaque o presente. Quem toca caixa, agogô e timbau sabe que o samba e o rap não são parentes distantes — são a mesma árvore. E ele era um dos poucos que circulava entre os dois galhos sem pedir licença.
A Secretaria Municipal de Cultura de Mogi Guaçu e o Conselho Municipal de Política Cultural publicaram uma nota que, em poucas linhas, resume o personagem:
"Poeta, batuqueiro, ativista e produtor cultural, Jamelão fez da arte um instrumento de expressão, resistência e transformação social. Idealizador do Anjos da Rua, incentivador e músico do grupo Inspirados de Rap, membro da Academia de Letras Guaçuana e da Associação dos Negros Guaçuana, dedicou sua trajetória à valorização da cultura."
E mais adiante:
"Jamelão foi um guerreiro da cultura. Daqueles que não esperam as coisas acontecerem: fazem acontecer, mobilizam pessoas, abrem caminhos e deixam sementes."
Nas redes, a despedida de um músico da cidade ao amigo de palco tem outra temperatura:
"Foi um dos caras que me deu força quando entrei na música na adolescência, ficará para sempre na memória. Que Deus conforte o coração da sua família. Eterno Jamelão — se existisse alguém que gostasse de samba mais que ele, desconheço."
Morre um homem; permanece uma estrutura. O Anjos da Rua continua de pé, o Inspirados continua existindo, a Academia de Letras Guaçuana segue com sua cadeira vazia. Mas nenhuma dessas instituições responde à pergunta que fica: quem mobiliza quando o mobilizador se cala?
A resposta, talvez, esteja na própria imagem que ele escolheu para si. O ogã é aquela figura que sustenta a cerimônia sem aparecer no centro dela — o que segura o tambor para que o santo possa descer. Jamelão passou 57 anos fazendo isso: sustentando o compasso para que os outros pudessem cantar.
Neste 1º de novembro, quando Mogi Guaçu acender suas velas, o atabaque dele estará em silêncio. Mas o andamento que ele marcou não para.
Jamelão, presente.
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