
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) saiu em vantagem na disputa pelos eleitores indecisos no debate da TV Globo, na noite de sexta-feira (23/10), segundo pesquisa qualitativa conduzida pelo cientista político Renato Dorgan, presidente do instituto Travessia. O levantamento acompanhou as reações de eleitores ao último confronto direto da campanha do segundo turno, que termina neste domingo (25).
A dinâmica foi realizada em uma "sala de espelho": os participantes foram observados pela reportagem do outro lado de um vidro, sem saber que estavam sendo vistos. Recurso comum em campanhas eleitorais, a pesquisa qualitativa tem caráter analítico e não possui rigor estatístico, ou seja, indica tendências de percepção, não projeção de votos.
Segundo o estudo, a vantagem de Lula veio da capacidade de explorar os erros do adversário. Duas situações produziram reações negativas em massa no grupo observado.
A primeira foi a resposta de Flávio sobre a morte da menina Ana Clara Gomes Machado, de 5 anos, atingida por disparo de fuzil em Niterói (RJ), em 2021. O senador atuou como advogado do policial militar acusado pelo tiro. Durante o debate, ao se dirigir à mãe da criança, Cristiane Gomes da Silva — levada ao estúdio pela comitiva de Lula —, Flávio a chamou de "senhora Ana Clara", confundindo-a com a filha morta.
A segunda foi o momento em que o senador se referiu ao presidente como "nove dedos", em referência à perda do dedo da mão esquerda de Lula em acidente de trabalho na juventude. A provocação, feita durante a discussão sobre tarifa zero e carga tributária, foi seguida de um pedido público de desculpas do senador.
"Não adianta nada, Lula, o salário mínimo estar em 1.621 reais se você dá com uma mão e tira com os nove dedos" — Flávio Bolsonaro, durante o debate
O levantamento foi feito às vésperas de uma eleição em aberto. Pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (22), com 2.520 entrevistas feitas entre 20 e 22 de outubro em 154 municípios, registrou empate técnico: 50% dos votos válidos para cada candidato. Na intenção de voto bruta, Flávio aparecia com 46% e Lula com 45%, com 4% de brancos e nulos e 4% de indecisos.
Na pesquisa espontânea, o percentual de eleitores indecisos havia dobrado em uma semana — de 7% para 14% —, dado que explica a orientação das duas campanhas para o debate: moderação no tom e foco em propostas, em contraste com o confronto da Band, em 18 de outubro, marcado por ofensas.
Outros institutos retratavam a mesma indefinição: a Quaest apontou Flávio com 45% e Lula com 44% (17 a 20 de outubro, margem de 2 pontos), enquanto o PoderData/Aya registrou 51% a 49% para o senador nos votos válidos (19 a 21 de outubro, margem de 1,6 ponto). O Ipespe/Abrapel, divulgado na sexta-feira (23), marcou 50,5% para Flávio e 49,5% para Lula nos votos válidos. O agregador da BBC Brasil, com base nas pesquisas disponíveis até a manhã de sexta, mostrava Flávio com 47%, Lula com 45% e 8% sem candidato.
A leitura qualitativa sugere uma assimetria: ainda que as pesquisas quantitativas apontem empate ou leve vantagem numérica do senador, a percepção sobre o desempenho no debate teria pendido para o presidente entre os eleitores que ainda não decidiram. Isso importa porque, num cenário de 50% a 50% nos votos válidos, o voto residual — os poucos indecisos e a taxa de abstenção — define o resultado.
Por outro lado, interlocutores de Flávio avaliaram o saldo geral como favorável ao senador e trataram os dois episódios como "derrapadas" pontuais. O pedido de desculpas, na visão desses aliados, foi recebido como demonstração de "grandeza" — a capacidade de reconhecer o próprio erro.
Cabe registrar a diferença de método: enquanto o instituto Travessia observou reações em grupo, os institutos quantitativos medem intenção declarada de voto. As duas leituras não se contradizem necessariamente, mas medem fenômenos distintos — percepção de desempenho, de um lado; disposição de voto, de outro.
A votação do segundo turno ocorre neste domingo (25). A Folha e a Agência Lupa fizeram checagem ao vivo das declarações dos dois candidatos durante o debate, e o resultado final deve ser conhecido na noite de domingo, com a apuração conduzida pelo Tribunal Superior Eleitoral.
Mín. 18° Máx. 33°