
Com muita satisfação, estreio minha coluna aqui no portal Zatum Notícias. Vamos debater temas de interesse da sociedade em geral, na área da Segurança Pública, e também assuntos relacionados às Guardas Municipais. Desde já, agradeço a leitura e segue abaixo o meu primeiro artigo:
A natureza da função de um Guarda Municipal é complexa, transcendendo muitas vezes o mero cumprimento de um horário. A questão de saber se há uma "obrigação" de atuar em horário de folga, quando confrontado com uma situação de crime, é um dos dilemas debatidos dentro da categoria, envolvendo não apenas a legislação, mas também a ética profissional e a expectativa social.
Argumentos para a ação em folga frequentemente se ancoram no conceito de "status" do agente de segurança pública. Muitos defendem que, uma vez investido de poder de polícia e armado, o Guarda Municipal carrega consigo uma responsabilidade intrínseca de proteger a vida e o patrimônio, independentemente de estar em serviço ou não. A capacidade treinada, o conhecimento de protocolos e, acima de tudo, o juramento de servir à comunidade, impulsionariam a ação imediata em prol da segurança alheia, enxergando a inação como uma falha moral inaceitável.
No entanto, a realidade operacional da atuação na folga é repleta de nuances e riscos significativos. Um Guarda fora de serviço geralmente não possui o equipamento completo: colete balístico, rádio comunicador, viatura e nem o apoio imediato de uma equipe. Atuar nessas condições o expõe a perigos desnecessários, pode gerar identificação equivocada por parte de outros agentes ou da população, e levantar questionamentos legais sobre a validade de sua intervenção. A linha entre a bravura e a imprudência, nesse contexto, torna-se tênue, e a falta de um respaldo claro pode deixar o profissional em uma posição vulnerável.
Consideremos, então, a incômoda pergunta: se a mãe do prefeito estivesse sendo assaltada e um Guarda Municipal, em condições de intervir, presenciasse a cena em sua folga, o prefeito desejaria sua ação ou inação? A resposta, em quase todos os cenários imagináveis, penderia esmagadoramente para a intervenção. Essa hipótese cruelmente expõe a disparidade entre a exigência formal e a expectativa humana. A maioria das pessoas, inclusive autoridades, esperaria que o agente de segurança, dotado de treinamento e aptidão, agisse para conter uma injustiça flagrante, especialmente quando o perigo toca de perto.
Em última análise, a questão da atuação em folga para os Guardas Municipais reside em um limbo entre o dever cívico, a responsabilidade profissional e a autoproteção. É uma área cinzenta que exige mais do que um "sim" ou "não" categórico, demandando protocolos claros, suporte jurídico e psicológico para os profissionais, e uma sociedade que valorize a segurança de todos, não apenas a de seus entes queridos.
Eliel Miranda, Guarda Municipal. Diretor do Conselho Nacional das Guardas Municipais. Deputado Federal Suplente. Instagram: @elielmirandaoficial
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