
Tatuí é um solo infértil para a Justiça, mas generoso para o racismo. Eu conheço esse chão. Fui registrado nessa dita "Capital da Música", estudei na Escola Ternura, Chico Pereira e cresci na rua 7 de Maio, no número 639. Conheço bem a casta de canalhas que governa e habita esse lugar. Inclusive os de sangue. Minha linhagem biológica nessa cidade é um desfile de fracassados, bebuns e ignorantes que precisarão engolir a seco o fato de que o filho preto da Nelita é mais culto, próspero e interessante do que todos eles juntos. E nem ouso comparar minha irmã, a Diva Dandara — formada, linda e bem-sucedida — com essa parentada chucra, feia, mal cheirosa, com alcoólatras, maluquinhos de bairro e entre outros parvos e parvas. Se não sabem o que significa algumas palavras, vão pesquisar no dicionário, diria a minha avó Maria, outra rainha.
Mas este texto não é sobre o meu sucesso; é sobre o assassinato de Kaio.
Kaio tinha 22 anos, era ator, um artista gigante que venceu a barreira do impossível e passou na USP (Universidade de São Paulo) para cursar Artes Cênicas. Ele não morreu; foi executado pela negligência criminosa de um sistema que tem cor e sobrenome. Se o peito que explodisse em dor fosse de um "Orsi", de um "Junqueira", "Quevedo", "Borssato", de um "Furlan" ou de qualquer herdeiro de boutique, o tapete vermelho seria estendido. Mas era o Kaio. E para o Kaio, o Estado reservou a desgraça.
Foram noventa minutos de agonia absoluta esperando o SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência). Noventa minutos para o Estado decidir se a vida de um jovem preto valia o gasto da gasolina. Quando finalmente chegou ao hospital, o diagnóstico foi um tapa na cara: "ansiedade". Ignoraram o básico, negaram um exame de sangue, fizeram uma perfumaria médica de fachada e o chutaram de volta para a rua com um calmante após duas horas.
O corpo não mente, mas as instituições, sim. Quando os sintomas pioraram, o jovem ator buscou a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) de Tatuí. Lá, uma médica admitiu a falha anterior, mas o erro se repetiu como um eco maldito. Sem laboratório, sem investigação, apenas o rótulo medíocre de uma "bronquite". Na quarta-feira, o corpo dele desistiu. O artista morreu porque o sistema de saúde de Tatuí é racista e operado por bandidos de jaleco.
Prefeito Miguel, eu lembro de você de bermudinha no Anglo, subindo escada para falar com o Luís. Escute bem: apure essa história com o rigor que o cargo exige. Caso contrário, serei sua oposição mais ferrenha. Já defenestrei vereadores e prefeitos como repórter — dê um Google no meu nome se duvida do meu veneno. O que a turma do Gonzaga faz contra você é doce de leite perto do que eu farei. Nenhuma licitação, contrato ou maracutaia passará em branco sob o meu olhar.
Sou herdeiro dos pretos que não morreram na travessia do Atlântico. Eu não quero paz, quero guerra. Se na minha época de Tatuí tivesse passado mal, eu teria sido o Kaio. A minha sorte foi a minha saúde, porque a humanidade dessa cidade nunca existiu para nós.
Com racistas, a única linguagem que funciona é o confronto. Fica aqui o meu ódio, minha fúria e minha tristeza profunda pela perda do Kaio. Não haverá descanso enquanto a causa da morte não for devidamente nomeada: racismo institucional.
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