
A gordita, cujo nome é Capitu, é uma viralatinha, com a cara caramelo, patas e peito da mesma coloração, cujos fios mais parecem pelúcias de ouro. O corpo é preto, mas com pelos dourados reluzentes. Parece luzes. A pelagem é abundante e comprida. Foi Deus que mandou essa criaturinha em minha vida, para ensinar-me sobre gostar de estar perto, amor de verdade, afeto, amizade e peraltices das mais saborosas e engraçadas.
Capitu sabe bater na porta para entrar no quarto, lambe a minha careca quando coloco tênis, já que ela entende que vou passear, e ela adora andar pela rua. Esperta, a doçura me agrada para levá-la. A cachorrinha pede comida, preferencialmente com sachê de carne, adora pão, ovo cozido; tem medo de trovão e rojão e quer pegar os gatos da vizinha, principalmente um pretinho que é gaiato, audacioso e malandrinho.
Ela não sabe ler este texto, mas sabe interpretar, na vida real, todos os dias, os sentimentos desta crônica. E é isso que importa. Mas, por outro lado, Capitu enxerga coisas que não conseguimos discernir. Conhece mundos ignorados por nós, como todos os cachorros.
Gosto de contemplar os olhos grandes, castanhos, profundos, sábios e misteriosos desse ser que tem o nome de uma grande personagem de Machado de Assis. Fico pensando no que ela sabe, que, nós, ditos humanos racionais, não compreendemos.
Capitu faz festa quando chego da rua, como uma adolescente ingênua faria para um grande pop-star. Não importa se fiquei cem anos ou 15 minutos fora de casa. O escândalo de saudades, daquelas doloridas no coração, é o mesmo. Ansiosa, ela rodopia, rebola, late, salta, pula, cai no chão, chora, sorri feliz e vem me abraçar. Existir assim, vale a pena.
Quando criança, tive duas vira latas, a Preta e a Crioula. A primeira era sagaz, maliciosa, mordia calcanhares em silêncio e tinha inimigos. Já a outra era bonachona, orelhuda e tropeçava em si. Prenhez, algum maldito deu veneno. Morreram. O trauma foi tamanho que só consegui chorar depois de adulto, numa sessão de terapia, décadas depois.
Desejo, do fundo da alma, que essa pessoa e sua geração por cem mil anos estejam em profundo sofrimento, na salmora, vinagre, enxofre e em carne viva, para arder infinitamente. Um dia, talvez, faça uma vingança, como aquelas dos filmes do Tarantino, bem sangrentas e épicas. Guardo esse rancor e mágoa há 30 anos.
Quem matou as minhas amigas de infância tem muitos motivos para viver em estado de alerta, com o cú na mão. A conta da escrotidão sempre chega.
Entretanto, Capitu veio com a missão de acalmar, para transmutar o ódio e a raiva pela incompreensão do mundo em sentimentos generosos e inefáveis. Ela é uma síntese da Preta e Criola. Deus é meu amigo, e a enviou para curar e salvar. Agradeço muito por essa amorosa companhia e companheira, a Capituzinha.
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