
Meu amigo Padovani
Faleceu na noite deste domingo (20), às 22h15, em Campinas, no Hospital Samaritano, o meu querido amigo Henrique Padovani, aos 74 anos, após complicações de um AVC (Acidente Vascular Cerebral), sofrido na quinta (17). Defensor incansável do meio ambiente, Padovani, como era mais conhecido, fará muita falta em Paulínia, principalmente pela nobreza de caráter, coragem e vontade de fazer o bem. Ele deixa três filhas, cinco netos, dois bisnetos e dezenas de familiares e amigos. O velório está ocorrendo no Cemitério de Paulínia e o horário do sepultamento será divulgado em breve.
Respeito
Conheci Padovani, mais ou menos, em 2009, quando era repórter do Portal de Paulínia. No ano seguinte, quando fui contratado pelo TodoDia, o ambientalista passou a ser uma fonte quase que semanal. Bastava acontecer um vazamento de produtos químicos no Rio Atibaia, uma mortandade de peixes no Mini-Pantanal ou uma queimada em área de APP (Área de Preservação Ambiental) que Padovani entrava em contato, indignado, para denunciar. Repórteres de toda a região o conheciam e respeitavam.
Conversas
Por conta dessas conversas sobre pautas jornalísticas, tornamo-nos grandes amigos. Em diversas ocasiões, jantamos na Padaria Real, na Avenida José Paulino, bem no Centro da cidade. Comíamos o prato feito, sempre com bastante salada. Com uma ou duas cervejinhas geladas como companhia, Padovani contava partes da história de Paulínia e de sua militância cidadã. Inocente, eu discorria como queria mudar o mundo com o meu jornalismo. Os puxa-sacos de plantão do então prefeito, ao nos verem papeando, torciam o nariz. Eles pensavam que o defensor da fauna e flora poderia “causar problemas”, ou “passar informações”. Mal sabiam que o objetivo dele sempre foi ajudar.
Independente
Padovani sempre foi superior à classe política local, por ser independente, correto e realmente comprometido com o bem dos seres vivos. Ele não se importava se era bicho, planta, árvore ou gente. O ambientalista queria o bem de todos e de tudo. Em meio a essa bagunça por qual passa a cidade, onde muitas vezes a ganância por poder e dinheiro acabam se impondo sobre o bem comum, um cidadão como “seu Henrique”, como alguns o chamavam, fará muita falta.
Conhecimento
Não me lembro de conhecer uma pessoa com tanto conhecimento sobre os rios, córregos, nascentes, matas e árvores de nossa região. Padovani conhecia como ninguém as nossas florestas e espécimes de animais silvestres. Ele também foi, sem dúvida, um dos maiores e mais relevantes ambientalistas do Brasil. Padovani foi amigo, inclusive, do “Raoni original”, o líder indígena do Povo Caiapó, a quem devo o nome, que vive no Xingu, e outro grande defensor da natureza.
Família
Quando a minha mãe e irmã decidiram sair de Osasco e vieram morar em Paulínia, em 2012, Padovani foi quem alugou o imóvel. Por conta disso, as nossas famílias, de certo modo, ficaram próximas. Ele sempre foi muito hospitaleiro comigo e minha família.
Trajetória
Em sua trajetória como ambientalista, Padovani foi secretário e diretor de Meio Ambiente em Paulínia, candidato a prefeito e a deputado federal, colaborador de legislações ambientais por todo o país, plantou milhares de árvores, esteve presente na luta pela emancipação de Paulínia em 1964, lutou contra a Ditadura Militar, viajou para diversas partes do mundo para defender os seus ideais e ensinou milhares de crianças a cuidarem de forma honrada do planeta terra.
Viatura
Nos últimos tempos, Padovani circulou pela cidade com a sua “viatura”, uma caminhonete vinho, com um giro-flex, que ele usava quando tinha pressa para chegar em algum ponto para registrar denúncias ambientais. Em uma dessas ocorrências, eu estava no veículo e tínhamos pressa para registrar uma queimada no Mini-Pantanal. À nossa frente estava o delegado em seu veículo e uma viatura da Guarda Civil. Sem pensar duas vezes, Padovani ligou a sirene. Fiquei preocupado. No entanto, quando viram quem estava no volante, as autoridades deram passagem, sem reclamar. Até hoje dou gargalhadas quando lembro dessa história.
Legado
Em um domingo ensolarado e de águas, em que maritacas fizeram algazarras pelos céus, cigarras cantaram as felicidades, tragédias e prazeres do verão, onças suçuaranas, abundantes em nossa região, saíram para caçar à noite, as árvores de tão verdes, exuberantes, e com a fartura de vida que nosso ambientalista tanto defendeu seguindo o seu curso natural, como uma oração de despedida e agradecimento, Henrique Padovani partiu para o céu. Na terra, permanecem o seu legado e exemplo de amor por tudo o que existe.
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