
Escrevo um texto errado. Reconheço. Ana Priscila de Azevedo, a principal organizadora do terrorismo em Brasíllia, é uma fora da lei, atentou contra a democracia. É uma canalha golpista.
Dito isso, vamos ao que interessa. Na literatura, teatro e cinema, entre os personagens mais atraentes, estão entre os subversivos, aqueles que infringem as regras.
Homero, por exemplo, desenhou um Odisseu pragmático e capaz de tudo para voltar para Ítaca e encontrar sua amada Penélope. Ficar numa ilha com belas ninfas e depois safar-se de permanecer lá pelo resto da vida, enfrentar o ciclope Polifemo e ter uma estratégia para sair da caverna sozinho e fingir ser um velho, para cumprir uma missão de vingança, são apenas algumas das façanhas do protagonista em Odisséia. O herói da obra é a pura personificação do pragmatismo.
No livro o Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, o anjo é um porre de chato. Já o diabo é espirituoso, zombeteiro, domina a retórica e mostra complexidade ao explanar sobre as vicissitudes humanas.
Dom Corleone, de Mario Puzo, magistralmente retratado no cinema pelo diretor Coppola, na pele do ator Marlon Brando, talvez seja o melhor e mais admirado personagem do cinema. O problema é que trata-se de um mafioso, manipulador e corruptor de autoridades. Não é sem motivos que os filmes do Coringa dão bilhões de dólares de lucro.
No mundo real, os revolucionários também são extremamente magnéticos. Existe um brilho cativante de loucura, fanatismo e obstinação no olhar daqueles com coragem para mudar o estado de coisas.
Zumbi dos Palmares, Napoleão, Anita Garibaldi, João Cândido, o Almirante Negro; Gandhi, Mandela, Marighella, Malcolm X, Che Guevara, Carlos Lamarca, Mao, Lenin, Khomeini e a parva da Ana tem algo em comum: coragem para mudar o mundo, nem que seja da forma errada. Em geral, gostamos das criaturas com ímpeto para provocar profundas alterações sociais e políticas.
Pena que a golpista esteja do lado errado. Como excelente agitadora, ela seria muito útil nas fileiras dos trabalhadores, negros, nordestinos, mulheres, comunidade LGBT e minorias excluídas.
E Ana nada tem de conservadora: ela é uma liderança feminina no meio de idiotas machistas, e com fôlego para mobilizar milhares de pessoas. Tomara que um dia ela tome consciência de classe e mude.
Aliás, no caso em tela ainda existe outro paradoxo. Parte dos conservadores do momento são aqueles que no passado já quiseram uma revolução socialista.
Para finalizar, o riso de Ana ao ver uma viatura da PF (Polícia Federal) caída na água é impagável. Procure no YouTube e também ria do deboche que a golpista sente ao ver, um símbolo da repressão do Estado, jogado num laguinho que fica próximo ao Palácio do Planalto. Tudo muito maluco, complexo e contraditório.
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