Cidades MOGI GUAÇU
A Câmara ouviu a rua. E agora, quem ouve a Câmara?
Uma análise sociológica
05/11/2026 11h27
Por: Luís Braga Fonte: Luís Braga, sociólogo
Câmara Municipal de Mogi Guaçu (Crédito: divulgação)

Na última terça-feira (3), a Câmara Municipal de Mogi Guaçu fez algo raro na política brasileira: voltou atrás em sete dias. Por 9 votos a 3, com a ausência do vereador Pezão (União Brasil), o plenário aprovou o Projeto de Decreto Legislativo nº 30/2026 e revogou integralmente o Decreto Legislativo nº 702, retirando do médico José Luiz Nora Neto, o Dr. Nora (PL), o título de Cidadão Guaçuano que a Casa lhe havia concedido por unanimidade em 26 de outubro. A sessão foi tumultuada, o plenário estava dividido entre apoiadores e críticos, e o motivo é conhecido: a repercussão das publicações do médico nas redes sociais no dia seguinte ao segundo turno — publicações que motivaram inquérito policial e apuração no Ministério Público do Trabalho, e que o próprio Nora apagou antes de se retratar alegando má interpretação. Não cabe aqui julgar o conteúdo da postagem nem o mérito das investigações; cabe olhar para o que a Casa fez com isso e para o que essa decisão inaugura.

Começo pelo que a Câmara acertou, porque acertou. Um Legislativo que corrige a própria decisão em uma semana, diante de pressão legítima e organizada, comporta-se como caixa de ressonância da sociedade — e, num país onde a honraria costuma ser moeda de troca local, isso não é pouco. A autoria do pedido, assinada pelo vereador Marçal Georges Damião, o Marçal do Sindicato (PSDB), e a tramitação em regime de urgência revelam algo além do episódio: uma Casa que percebeu, antes do fim do mandato, que a opinião pública guaçuana passou a cobrar resposta rápida. E os nove votos vieram de quatro legendas — MDB, Republicanos, PSD, PP e PSDB — numa maioria transversal, não numa trincheira partidária. A Câmara não votou contra o PL: votou a favor do que entendeu ser a rua.

Só que é exatamente aí que começa o problema, e ele não é pequeno. Uma Casa que responde em sete dias ao primeiro clamor organizado cria um padrão de expectativa que não conseguirá sustentar. Porque nenhuma demanda que estrutura de fato a vida em Mogi Guaçu. O clamor que produz resultado em uma semana tende a ser o clamor com boa articulação digital e mobilização popular. Se a Câmara não tiver clareza dessa assimetria, a celeridade exemplar de terça-feira vira a régua pela qual toda demanda será medida e essa régua é impossível.

Para entender o que está em jogo, é preciso olhar o mapa. Em 2024, o PL lançou Dr. Nora à Prefeitura e perdeu: 22.329 votos (28,46%), contra os 51.329 (65,42%) do reeleito Rodrigo Falsetti, do PSD — resultado que o PL contestou na Justiça Eleitoral e que o TSE confirmou por unanimidade em setembro de 2025. Dois anos depois, no segundo turno presidencial, Flavio Bolsonaro (PL) venceu em Mogi Guaçu com 61.849 votos (68,49%), contra 28.453 (31,51%) de Lula (PT).

Os números contam uma história incômoda para quem gosta de leitura simples: o campo político de Nora cresceu de 28,5% para 68,5% em dois anos, mas o candidato que o personifica perdeu 45 pontos de viabilidade em uma única publicação. Nora não é o bolsonarismo local; o bolsonarismo local é maior que Nora e é por isso que a revogação não resolveu a tensão, apenas a transferiu. Do outro lado, a esquerda guaçuana saiu do ciclo mais mobilizada do que entrou, sobretudo entre os jovens, e movimentos de juventude e sindicais foram protagonistas na pressão que desaguou na revogação. Mas mobilização não é musculatura eleitoral: 31,51% garante barulho e não garante bancada.

Aqui chegamos ao ponto central desta coluna. Uma leitura que circula na cidade — a de que Mogi Guaçu, exausta de embate, pedirá em 2028 um nome de pacificação — é correta e perigosa na mesma medida. Correta porque descreve com honestidade o humor do eleitorado. Perigosa porque confunde a demanda do eleitor com a possibilidade do governo: o pacificador se elege com a base do cansaço, e a base do cansaço não é base de sustentação.

A pacificação não é um estilo de fazer política; é o resultado de um acordo que precisa existir antes. Prometê-la como programa é prometer o que não se controla, num município que carrega uma equação sem solução retórica: um prefeito reeleito com 65% e já confirmado pelo TSE, uma Câmara disposta a corrigir o Executivo sob pressão da rua, um campo conservador majoritário nas urnas e órfão de liderança com capital próprio, e uma esquerda jovem, organizada e numericamente insuficiente.

A decisão de terça-feira foi sensata e a Casa sai maior dela. Mas o Legislativo guaçuano precisa decidir que instituição quer ser: a que responde ao clamor na velocidade que a rua exige — e que, por isso, será cobrada na mesma velocidade em tudo — ou a que constrói critério, com regimento, calendário e transparência, para que a resposta rápida não seja um favor concedido a quem grita mais alto. A primeira é popular. A segunda é republicana.

Mogi Guaçu acabou de aprender que a pressão funciona; o passo seguinte, e o mais difícil, é aprender que ela não pode ser o único mecanismo de decisão pública. Enquanto a cidade não resolver essa equação, todo episódio como o do título de cidadania será ensaio geral do próximo e o hospital municipal, com um tubo rompido e uma fila na porta, não tem tempo para ensaio.