Vivemos em uma época em que as relações parecem cada vez mais frágeis, rápidas e, muitas vezes, utilitárias. É comum observar pessoas que transitam de amizade em amizade, não pela construção de vínculo, mas pela busca de vantagens: apoio momentâneo, status, dinheiro, contatos ou até validação emocional.
Mas o que está por trás desse comportamento?
A psicanálise nos ajuda a compreender que, muitas vezes, essas “amizades de proveito” não são apenas uma questão de caráter, mas revelam conflitos internos mais profundos.
O OUTRO COMO OBJETO DE USO
Na teoria psicanalítica, especialmente em Donald Winnicott, existe a ideia de que o amadurecimento emocional envolve reconhecer o outro como um ser separado, com desejos e limites próprios. Quando isso não acontece, o indivíduo passa a enxergar o outro como um objeto de uso, ou seja, amizade só existe enquanto há benefício
· O vínculo é descartável!
O afeto é condicionado, nesse cenário, o “amigo” não é alguém com quem se constrói, mas alguém de quem se extrai.
O CICLO,USAR, DESCARTAR E SUBSTITUIR
Existe um padrão bastante claro nesse tipo de comportamento, aproxima-se de alguém que oferece alguma vantagem, cria uma falsa intimidade, extrai o que precisa (emocional, financeiro, social), afasta-se quando o outro já não “serve”, parte para o próximo!
Esse ciclo revela uma incapacidade de sustentar relações reais porque relações reais exigem troca, limite e frustração.
E quem vive apenas em função do próprio benefício não tolera frustração.
VAIDADE E NECESSIDADE DE VALIDAÇÃO
A vaidade, nesse contexto, vai muito além da aparência. Trata-se de uma necessidade constante de ser visto, reconhecido e valorizado.
Segundo Freud, o ego busca constantemente formas de se sustentar, quando esse ego é frágil, ele depende do outro como espelho.
Essas pessoas precisam estar cercadas de quem “agrega valor” à sua imagem.
· Buscam relações que aumentem seu status
· Evitam vínculos onde não há ganho visível
· A amizade deixa de ser encontro e passa a ser estratégia.
IMATURIDADE EMOCIONAL, NÃO SABER SUSTENTAR VÍNCULOS
A dificuldade em manter amizades verdadeiras está diretamente ligada à falta de amadurecimento emocional.
Amadurecer implica:
· Saber lidar com frustrações
· Respeitar o tempo do outro
· Construir relações sem ganhos imediatos
· Quem não amadureceu emocionalmente:
· Se entedia facilmente nas relações
· Só se mantém onde há recompensa
· Foge quando precisa se responsabilizar
· Julga constantemente os outros, colocando sua própria opinião como superior
· Tem necessidade de estar sempre certo, principalmente quando sua imagem ou vaidade está em jogo
· Não aceita ser contrariado, pois qualquer discordância é sentida como ataque pessoal
Aqui, não se trata apenas de imaturidade, mas de uma estrutura emocional frágil, que precisa se impor para não entrar em contato com suas próprias inseguranças.
Por isso, essas pessoas vivem em constante troca de círculos sociais, não por evolução, mas por incapacidade de permanecer.
A LIGAÇÃO COM A DESORGANIZAÇÃO FINANCEIRA
Um ponto pouco falado, mas extremamente relevante, é a relação entre esse comportamento e a falta de planejamento financeiro, muitas dessas pessoas:
· Dependem de outros para manter seu estilo de vida
· Buscam amizades que tragam benefícios materiais
· Usam vínculos como forma de sobrevivência
· Nesse caso, a amizade se torna um recurso.
E isso cria um padrão perigoso, o outro deixa de ser escolha e passa a ser necessidade.
O VAZIO POR TRÁS DO USO
Apesar de parecerem sempre cercadas de pessoas, essas pessoas frequentemente vivem um profundo vazio.
Porque relações baseadas em interesse:
· Não geram pertencimento
· Não sustentam afeto real
· Não criam segurança emocional
No fundo, há uma dificuldade de construir identidade própria, sem isso, o indivíduo precisa constantemente “se apoiar” em alguém.
Enfim amizades verdadeiras não se sustentam no que o outro pode oferecer, mas no que é possível construir juntos, quando o outro vira um meio, o vínculo deixa de existir.
E quem vive usando pessoas, no final, revela não poder contar verdadeiramente com ninguém, nem consigo mesmo.
Quem transforma pessoas em degraus, nunca aprende a construir caminhos.