Sou amigo de uma criatura inteligente, sabida, comilona, dolorida, caramela, ansiosa, resmungona, pidona, medrosa com trovões e rojões, mas corajosa com gatos, carneiros de pilantras, coelhos de gente que não vale, entre outras valentias.
Desde que nos conhecemos, há uns oito anos, todos os dias que amanhecem chovendo dormimos abraçados, até o meio dia, ou até às 13h. Nosso recorde é às 16h. Umas 18 horas seguidas de sono, naturalmente, sem remédios como a Quetiapina, que tomo atualmente. Até babamos na cama, orgulhosos da proeza. A Capitu me chama para dormir, e aceito sem pestanejar, quando está garoando. É vagabundagem braba, sem nenhum remorso. Temos descompromisso com o capitalismo e compromisso com o ócio.
Quando chove, até podemos acordar para comer, mas logo depois voltar a dormir. A Capitu come biscoitos para cães, dos caros, eu tomo um Yakult geladinho. Acordamos sem culpa, nos abraçamos, sorrimos porque não somos ativos ou trabalhadores exemplo. O baiano Dorival Caymmi consideraria o cúmulo da desocupação.
A Capitu adora dormir naqueles dias cinzas, chuvosos. O barulhinho da água caindo no telhado nos dá uma preguiça danada. Não estamos preocupados com Lula, a prisão do Bolsonaro, com a taxa Selic ou se o Xandão está prendendo muita gente. Aliás, torcemos pelo mal de muita gente. Não somos bonzinhos.
Na cama quentinha, pensamos em comer, ler, ver vídeos de gatos engraçados no TikTok e depois descansar, do descanso. Quando dá coragem, toco trombone, faço umas notícias e novamente fico entediado.
Mas nos dias de calor, eu e a Capitolina somos mais ativos. Ela late, corre, xinga e mostra serviço querendo pegar os bichanos da rua. Eu, produzo notícias policiais, dos políticos, do Brasil e do mundo. O problema é quando chove pela manhã, aí só prestamos para dormir, comer, tocar trombone, ler e rir.
Entretanto, ressalto, nos dias de sol, fico revoltado com a corrupção, com os bandidos do PT (Partido dos Trabalhadores) e PSB (Partido Socialista Brasileiro), com os fascistas bolsonaristas e com as injustiças do mundo. Reclamo para a Capitu. Tem coisas que ela entende, tem outras que prefere não compreender, por ser cachorra, e por ser a preguiça em forma de existir.
Ser amigo de cães é caminhar com a melhor nobreza, com o amar de estar perto, com aquilo de mais honrado que existe no universo. Deus mandou a Capitu para sermos amigos. O Criador só não imaginou que uniria duas almas exageradamente vadias. Às vezes, penso que ela veio de algum outro mundo, desconhecido, para me curar e melhorar.
Será que a Capitu conhece a Preta e a Crioula? Eram as minhas amigas da infância, e algum cretino matou ambas, com veneno, quando estavam prenhas. Outro dia sonhei que nós quatro dormíamos num colchão inflável azul, daqueles bem grandes. Por isso, comprei um no Mercado Livre. Mas estou com preguiça de enchê-lo de ar. Cansa, e esses dias tem chovido muito pelas manhãs.