As cenas de tiroteios e operações policiais nas grandes cidades brasileiras carregam uma consequência invisível, mas que se espalha pela sociedade: um profundo desgaste emocional e o adoecimento mental da população. Longe de se limitar às áreas de conflito, o medo e a sensação de insegurança tornaram-se um fator de risco crônico para a saúde psicológica dos brasileiros.
De acordo com o psicólogo Fabrício Otoboni, da Wyden, a exposição contínua à violência – seja real ou por meio de notícias – coloca o organismo em um estado de vigilância permanente. “Quando vivemos em alerta constante, o corpo passa a interpretar qualquer situação como uma ameaça, mesmo que não exista perigo real. Isso gera um desgaste intenso, que pode se manifestar como ansiedade, irritabilidade e até insônia”, explica.
O medo, em sua medida natural, é um mecanismo de defesa. O problema surge quando ele deixa de ser passageiro e começa a ditar as escolhas do dia a dia. “Muitas pessoas deixam de sair de casa, mudam rotas habituais ou se isolam socialmente por causa da sensação permanente de insegurança. O medo passa a controlar a vida”, alerta Otoboni.
O especialista ressalta que essa percepção de risco não vem apenas de confrontos armados. “O trânsito agressivo, o temor de assaltos e o receio que muitas mulheres sentem ao andar sozinhas ou usar o transporte público contribuem para uma vulnerabilidade diária. É um medo que vai se acumulando e minando a saúde emocional”, complementa.
Os números da violência ajudam a entender a dimensão do problema. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou um recorde de feminicídios, com quatro mulheres assassinadas por dia. Dados do Ministério dos Direitos Humanos apontam que 81% dos casos de violência infantil ocorrem dentro de casa – uma média de 13 vítimas por hora. Já o Atlas da Violência do Ipea revela um aumento de mais de 1.000% nos casos de violência contra a população LGBTQIA+ nos últimos nove anos.
A psiquiatra Maria Rita de Figueiredo Bagio Niero, professora do IDOMED, explica que o medo crônico provoca no organismo reações químicas semelhantes às vividas em perigos reais. “O corpo libera constantemente hormônios do estresse, como cortisol e adrenalina. Isso gera desgaste físico e mental. Com o tempo, o cérebro se acostuma ao estado de alerta, e a pessoa vive em tensão até em momentos seguros”, detalha.
Maria Rita também chama a atenção para o efeito da superexposição a notícias violentas, que amplifica a sensação de vulnerabilidade coletiva. “Mesmo quem não vive em áreas diretamente afetadas sente o impacto. O medo se propaga pelas redes sociais e noticiários, transformando a violência em um fenômeno psicológico coletivo”, afirma.
Diante desse cenário, os especialistas recomendam a adoção de estratégias de proteção emocional:
· Buscar acompanhamento psicológico profissional;
· Praticar atividades relaxantes e que tragam prazer;· Preservar e cultivar o convívio social;
· Limitar o consumo de notícias sobre violência, principalmente antes de dormir.
“É crucial criar pequenas pausas no dia a dia para reduzir o estresse e fortalecer os vínculos com pessoas de confiança. A sensação de pertencimento e apoio é um antídoto poderoso contra o medo e a insegurança”, finaliza o psicólogo Fabrício Otoboni.
A saúde mental, alertam os profissionais, é um dos pilares do bem-estar coletivo e demanda atenção tanto quanto a segurança pública. Enquanto a violência persistir como realidade urbana, seu custo psicológico seguirá sendo uma conta silenciosa – e cara – paga por toda a sociedade.