Cidades LADROAGEM
PF mira 'farra das licitações': vice de Hortolândia gastou R$ 3 mi em grifes e abasteceu campanhas do PSB em Paulínia
Inquérito expõe teia de corrupção que superfaturava material escolar em até 35 vezes; recursos desviados teriam virado mansão, carros de luxo e 'caixa dois' eleitoral
14/11/2025 09h12 Atualizada há 8 meses
Por: Zatum Notícias Fonte: Da Redação
Cafu foi preso pela Polícia Federal, em Hortolândia (Crédito: reprodução da EPTV)

Uma vida de ostentação incompatível com a renda declarada e o uso da máquina pública para fins privados. É assim que o MPF (Ministério Público Federal) descreve o cenário que levou à prisão de Cafu Cesar (PSB), vice-prefeito de Hortolândia.

A Operação da PF (Polícia Federal), deflagrada para combater fraudes na compra de material escolar, revelou que os desvios não serviram apenas para enriquecimento ilícito, mas também para interferir no cenário político da cidade vizinha, Paulínia.

A Rota do Luxo e o "Enriquecimento Sem Causa" 

O que alertou as autoridades não foi apenas a fraude burocrática, mas o rastro financeiro deixado pelo político. O Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) identificou uma movimentação atípica de dinheiro em espécie. Segundo o relatório, Cafu realizou 31 transações em lojas de alto luxo — incluindo as grifes Gucci e Burberry — totalizando R$ 2,9 milhões em gastos.

A "farra" com dinheiro vivo estendeu-se ao mercado imobiliário. O inquérito aponta a compra de uma propriedade em Sumaré por R$ 1,2 milhão, paga integralmente em espécie pelo vice-prefeito e sua ex-esposa.

Além disso, a relação promíscua com a empresa pivô do esquema, a Life Tecnologia Educacional, materializou-se em um veículo de luxo. Investigadores encontraram anotações ligando Cafu a uma BMW 320i da frota da empresa. Para o MPF, o carro seria uma "contrapartida" pelos serviços prestados à organização criminosa dentro da administração pública.

Conexão Paulínia: O 'Duto' Eleitoral 

A investigação ganhou novos contornos ao descobrir que a influência do esquema ultrapassou as fronteiras municipais. A PF apura o envio de remessas de dinheiro vivo para financiar candidaturas do PSB em Paulínia nas eleições de 2024.

Segundo a apuração, os valores — oriundos de emendas parlamentares desviadas — foram distribuídos em grande volume de notas de pequeno valor, caracterizando o clássico "Caixa 2". O objetivo seria alavancar aliados políticos na região. 

O Modus Operandi: Sobrefaturamento de 3.500% 

O esquema liderado por André Mariano, dono da Life Tecnologia Educacional, operava drenando cofres de diversas prefeituras paulistas. A empresa faturou R$ 128 milhões através de licitações viciadas, onde os editais eram dirigidos para impedir a concorrência.

A margem de lucro era exorbitante: produtos eram vendidos às prefeituras com ágio de até 35 vezes o valor de mercado. O lucro era então "lavado" por meio de doleiros e empresas de fachada, retornando aos agentes públicos sob a alcunha de "café" — código utilizado pelos criminosos para propina.

Defesa e Histórico 

Em nota oficial, a defesa de Cafu Cesar, representada pelo advogado Ralph Tórtima Filho, sustentou a "absoluta desnecessidade da prisão" e afirmou que os méritos das acusações serão rebatidos após a oitiva do vice-prefeito, que ainda não foi ouvido pela autoridade policial.

Vale lembrar que o cenário jurídico de Cafu já era delicado antes da operação. Em janeiro de 2025, a Justiça Eleitoral de Hortolândia determinou a cassação de seu mandato (e do vereador Leo do LM) por abuso de poder político e econômico, após denúncias de coação contra uma candidata da oposição.