A Polícia Civil de Campinas revelou, na segunda-feira (10), os detalhes de uma complexa engrenagem criminosa especializada na venda de produtos falsificados que movimentou cerca de R$ 12 milhões. O grupo, alvo de operações realizadas ontem e no dia 30 de outubro, utilizava uma estrutura empresarial sofisticada — incluindo 154 perfis falsos em marketplaces e 46 empresas de fachada — para comercializar itens ilegais em plataformas como Mercado Livre, Shopee e Magazine Luiza.
As diligências miraram endereços estratégicos em Campinas: desde galpões logísticos no bairro Jardim Itatinga até residências de alto padrão nos condomínios Swiss Park e Jardim Magnólia.
A "Fábrica" de Vendas Falsas
Segundo o delegado Elton Costa, responsável pelo caso, a organização operava de maneira industrial. Em um dos galpões, os agentes descobriram um escritório equipado com centenas de celulares conectados simultaneamente, operados por funcionários cuja única função era administrar as vendas, os recebimentos e a logística de entrega.
O modus operandi baseava-se na saturação do mercado. "Eles monopolizavam muitos dos sites com uma quantidade imensa de contas, o que trazia uma capilaridade e uma força muito grande ao grupo criminoso", explicou Costa.
Quando as plataformas de e-commerce detectavam fraudes e bloqueavam uma loja, a quadrilha prontamente ativava outra para continuar a venda dos mesmos produtos. Para blindar os líderes do esquema e lavar o dinheiro, foram criadas 46 empresas em nomes de laranjas. "Verificamos que todas essas contas eram operadas em nome de pessoas que não sabiam que seus dados estavam sendo utilizados; ou seja, frutos de falsificação e estelionato", detalhou o delegado.
Produtos de Luxo e Saúde em Risco A gama de produtos contrafeitos era vasta e incluía itens de alto valor agregado e risco à saúde pública. Foram apreendidos perfumes simulando marcas como Chanel e Dolce & Gabbana, eletrônicos (celulares e smartwatches Xiaomi e Motorola), robôs aspiradores, cartuchos de impressora e até canetas emagrecedoras.
Nesta terça-feira (11), representantes das marcas de cartuchos estiveram na delegacia e confirmaram, mediante laudo, a falsificação dos itens. O delegado alertou ainda para a apreensão de "perfumes importados sem validação no país ou selo da Anvisa, além de outros especificamente falsificados".
Cronologia das Prisões e Conexão Internacional As investigações indicam que o grupo importava as mercadorias da China e do Paraguai. A polícia apura agora uma possível ligação da quadrilha com a facção Primeiro Comando da Capital (PCC), embora o vínculo ainda não tenha sido confirmado oficialmente.
Primeira fase (30/10): Policiais do 6º Distrito Policial estouraram um galpão no Jardim Itatinga. Na ocasião, Gustavo Lupercino de Freitas, apontado como sócio principal e articulador de uma rede que atua em diversos estados, foi preso em flagrante. Ele responde por falsificação de medicamentos, descaminho, sonegação fiscal, estelionato e crimes contra as relações de consumo. Sua prisão foi convertida em preventiva. Um Porsche Macan foi apreendido na ação.
Segunda fase (10/11): Com base nos dados colhidos, a polícia cumpriu novos mandados de busca e apreensão em três galpões e três imóveis residenciais. Um dos alvos foi um sócio responsável pelas remessas internacionais, residente em uma casa de luxo no Swiss Park.
"Encontramos diversos objetos e documentos que o vinculavam diretamente a essa prática delitiva", afirmou Costa sobre o morador do condomínio de luxo. A esposa deste suspeito, temendo a ação policial, teria fugido para os Estados Unidos.
Próximos Passos Nos locais vistoriados, a polícia encontrou embalagens oficiais das plataformas de vendas, corroborando o uso das lojas virtuais para o escoamento da mercadoria ilegal. Todo o material apreendido, incluindo computadores e documentos empresariais, passará por perícia técnica.
O inquérito segue em andamento para identificar todos os integrantes da rede, rastrear a lavagem de dinheiro e mapear todas as ramificações da organização criminosa. Não conseguimos contato com a defesa das pessoas acusadas.