Cidades MEMÓRIA
Carta para a Preta e a Crioula (Coluna do Raoni)
Cães e humanos... muito amor
09/11/2025 01h38 Atualizada há 8 meses
Por: Zatum Notícias Fonte: RAONI ZAMBI
Preta e Crioula estão no céu dos cachorros (Crédito: Zatum Imagem)

Quando era criança, em Belo Horizonte, tive duas cachorras: a Preta e a Crioula. A primeira era um lobo, arguta, mordia em silêncio, caminhava sem fazer barulho, tinha inimigos e sentia ódio. A outra bonachona, orelhuda, tropeçava na alegria, comilona e puro amor. Mataram as duas envenenadas. Nunca aceitei. Elas estavam prenhes e fui ver ambas mortas, em dias próximos, numa ruazinha escrota. Escombros da alma. 

Não cheguei a ver o sofrimento delas, antes do final. Com certeza, deve ter sido muito dolorido. Medo. Dor. Escuro, e sem o tutor. Sofreram sozinhas, sem o menino Raoni Zambi estar perto. Faria o que fosse necessário para salvá-las. Peço perdão, meninas, por ter vacilado, por não ter levado socorro.

Lembro do cheiro delas, da nossa amizade, e minha memória tem até hoje as fotografias daquela covardia, imperdoável. A gente conversava, andávamos pelos bairros Jatobá, Palmares, Regina e Sol Nascente. Mas por muito pouco, alguma criatura abjeta deu veneno, e elas partiram, com os filhotinhos na barriga. Trata-se de algo que nunca vou perdoar. Quem fez essa maldade, um dia, pagará, ou alguém da família. Aprendi a me vingar.

Preta, e Crioula, minhas amadas, tornei-me um bom homem, e sempre estaremos unidos. Sinto muito pelo o que ocorreu. Durante minha caminhada até aqui, estudei trombone, e voltei recentemente a tocar. Sou jornalista, e fiz o curso numa boa universidade. Ganho bem escrevendo, contando histórias. Sou honesto e generoso. Acredito que devem estar orgulhosas.  Estarão sempre em meu coração, enquanto ele bater. Não vou deixar no esquecimento o que fizeram. Tudo isso tem aproximadamente 30 anos. Logo mais, daremos as nossas respostas.

Acredito que exista um céu dos cachorros, com felicidades sem fim. Devem estar com o Foguinho, Rabisco, Bentinho, Branquinha e Pitoco, brincando, correndo e me cuidando, muito.

A Crioula chegou numa caixinha de madeira, filhotinha, brincalhona e serelepe. Foi resgatada pela minha mãe. Já a Preta eu peguei da rua, e sempre fomos parecidos. Hoje, a minha melhor amiga é a Capitu. Todos os dias estamos juntos, dormindo na cama, nos sofás, diversas vezes do dia, na pura preguiça, comendo e curtindo a existência. A Capituzinha sabe da Preta e Crioula, das vinganças que faremos, das tristezas e nossas vitórias. As três seriam grandes amigas. Os Orixás e Deus já permitiram a busca da Justiça. É causa de Xango. 

O aço para se tornar espada precisa conhecer o fogo. Quando vi as duas desfalecidas, com aquelas barrigonas, minha alma queimou. Agora, quem deu veneno precisa se encontrar com o passado, e o Sabre forjado em desgraças. Preta e Crioula estarão comigo, para sempre, mais a Capitu!!!