Cidades OPINIÃO
Sociedade precisa debater a venda taxada e legal de todas as drogas para, de fato, combater o crime organizado (Coluna do Raoni)
Pelo menos 64 pessoas morreram, e o que vai mudar?
28/10/2025 23h42 Atualizada há 8 meses
Por: Zatum Notícias Fonte: RAONI ZAMBI
Dezenas de pessoas foram presas, e mortas (Crédito: Agência Brasil)

Dezenas de corpos empilhados, sendo a maioria de pessoas negras. Trata-se do balanço final da maior operação realizada no Rio de Janeiro, para combater o crime organizado, nesta terça-feira (28). 

Em termos práticos e na perspectiva da segurança pública, no dia seguinte à hecatombe, o que estará melhor na vida do cidadão carioca? Absolutamente nada. Quando morre um chefão ou gerente do tráfico, no dia seguinte, ocorre a substituição. Para usar uma expressão marxista, a “reserva de mão de obra” para o crime é quase infinita. 

Para continuar utilizando conceitos da economia, é crível admitir que a lei da oferta e procura é real. Se existe a demanda para o consumo de substâncias como a cocaína e a maconha, por exemplo, sempre haverá gente interessada em vender tais mercadorias, visando o lucro

O álcool também é uma droga, e é vendido sob a vigilância e tutela do estado, com uma indústria que gera milhares de empregos e bilhões em tributos.  Para minimizar acidentes de trânsito causados por pessoas embriagadas, para citar situações cotidianas, há multas e penas de prisão. 

Assim, a sociedade precisa debater, com franqueza e pragmatismo, caminhos similares para outras substâncias, que hoje são proibidas, mas mesmo assim são produzidas, vendidas e utilizadas.

O que deixa uma pessoa mais desequilibrada, cinco pinos de cocaína ou um litro de pinga de corote? A única diferença é que, no caso da cachaça, existem normas para a produção, venda e a arrecadação de impostos para o Estado. 

Nessa discussão, não deveria existir espaço para dogmatismos religiosos, ou politicagem barata e populismos. O preço que estamos pagando é muito alto, com o saldo de mortes e a existência de um estado paralelo que visa somente o lucro, e detêm poder em praticamente em todos os espaços.

As liberdades individuais deveriam prevalecer. Aqueles que querem se destruir, que o façam, mas sem financiar grupos como o Comando Vermelho ou PCC. No atual sistema, as forças de segurança estão apenas “enxugando gelo”, morrendo e produzindo desgraças, ao invés de verdadeiramente combater tais questões complexas no cerne. 

Na década de 1920, o governo estadunidense criou a famosa Lei Seca. Qual foi a consequência da proibição da venda de álcool? Figuras como Al Capone ganharam muito poder, produzindo e comercializando milhares de barris de whisky, entre outras bebidas.

Quem bebia, continuou bebendo, apesar da proibição. É triste, mas é assim.  Naquela época, grupos mafiosos também guerreavam entre si, em disputas de território, influência e capital. Agora, assistimos uma reedição tupiniquim das consequências de proibir. 

Caso a sociedade queira evitar mais cenas, como essas ocorridas na Cidade Maravilhosa, com dezenas de mortos, será necessário agir no sentido de eliminar, de uma vez por todas, as principais fontes de recursos das facções organizadas. Para isso, é necessário que o Estado entre no jogo, libere, legalize e produza riqueza com a venda de substâncias.