Luciana Gallinari estreia como colunista no portal Zatum Notícias. Ela vai escrever sobre psicologia, educação e atualidades, sempre com uma abordagem científica, e ao mesmo tempo coloquial. Segue o primeiro artigo e boa leitura!!!
Em meio a um cenário contemporâneo marcado por crescentes índices de violência, descrença e uma evidente perda de valores que outrora balizavam a boa convivência social, os desentendimentos tornam-se uma constante na vida cotidiana. A complexa teia dos relacionamentos humanos, sejam eles de natureza interpessoal ou intrapessoal, é colocada à prova.
O ser humano, por essência, é um repositório de conflitos. A dualidade é inerente: os embates internos remetem à alma e à espiritualidade, enquanto os externos se manifestam no meio físico e social. Somos, frequentemente, intransigentes, hesitantes e, em muitos momentos, egocêntricos. A ânsia por fazer prevalecer a própria vontade e opinião choca-se, inevitavelmente, com a realidade de uma sociedade multifacetada e plural.
É um desafio encontrar um indivíduo que jamais tenha enfrentado um conflito, seja no âmbito familiar, profissional, comunitário ou até mesmo consigo mesmo. O que verdadeiramente nos distingue e nos molda é a capacidade de gerir e superar esses atritos.
A singularidade como fator de tensão
Torna-se imperativo o entendimento de que cada pessoa é única, portadora de um conjunto singular de características e diferenças. Essa singularidade implica que a reação a uma mesma situação pode variar radicalmente. Temperamento, personalidade, caráter e modo de pensar são variáveis que conferem a cada indivíduo uma abordagem distinta perante os desafios.
A ausência dessa compreensão mútua invariavelmente fragiliza e abala os relacionamentos. As palavras proferidas diariamente, capazes de moldar a realidade circundante, detêm o poder de criar um ambiente de harmonia ou de discórdia, tanto para o emissor quanto para o receptor.
Conforme aponta o autor Rick Warren (2008), a manutenção de bons relacionamentos exige a "destruição do arsenal de armas nucleares relacionais", um repertório que inclui condenar, menosprezar, rotular, insultar, ironizar e reagir com sarcasmo.
Em uma analogia aprofundada, McCord compara nossa vida interior a um ecossistema. Assim como o ecossistema visível, nossa psique é sensível. A poluição do mundo externo degrada a vida biológica; de forma análoga, a poluição da vida interior, por meio de pensamentos e atitudes negativas, diminui a qualidade da vida emocional e da capacidade de amar.
Conflitos internos não se restringem ao indivíduo; eles invariavelmente transbordam para os relacionamentos externos, criando atritos que poderiam ser mitigados pelo exercício do autocontrole, da mansidão, da temperança e do afeto.
Unidade, não Uniformidade
Em suma, discordar é um direito perfeitamente aceitável, desde que exercido com urbanidade, em tom amigável e isento de ofensas. É possível e necessário expor a própria ideia sem desrespeitar a perspectiva alheia.
Recorrendo a outra analogia de Warren (2003), o mesmo diamante exibe facetas distintas a depender do ângulo de observação. Da mesma forma, espera-se unidade e não uniformidade nas relações. É factível caminhar lado a lado, mesmo diante da divergência em certos assuntos. A união persiste, mesmo que as ideias sobre um mesmo tema sejam diferentes, ecoando o Salmo 133.1: "Como é bom e agradável quando os irmãos convivem em união!"
A verdadeira comunhão, seja ela na família, no casamento, na amizade, no trabalho ou na comunidade, floresce com base na franqueza e na justiça. Ao enfrentar e resolver desentendimentos com transparência, o nível de intimidade mútua se aprofunda.
Reconhecer e admitir erros, falhas e más condutas é um desafio, mas é através desse reconhecimento que se aprende e se evita a repetição de atos prejudiciais. Restaurar relacionamentos é sempre um investimento valioso. Dado que todos já fomos lesados e também já causamos danos, somos convidados a permitir que o amor amplie nossas ações, pensamentos e atitudes, tornando o perdão uma prática contínua e essencial.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BÍBLIA DE ESTUDO DESAFIOS DE TODO HOMEM. Nova Versão Internacional. São Paulo: Mundo Cristão, 2012.
GALLINARI, Luciana et al. Presente Diário: o livro da leituras devocionais diárias n° 16. São Paulo, SP: Transmundial, 2013.
McCORD, Carlos. A vida que satisfaz. São Paulo, SP: Permanecer, 2007.
WARREN, Rick. Uma vida com propósitos: Você não está aqui por acaso. São Paulo, SP: Vida, 2003.