Tive a honra de estudar música no glorioso Conservatório de Tatuí. Sou trombonista, além de escrevedor. Lá, pelos idos do início dos anos 2000, a melhor escola de música do mundo realizava festivais de MPB (Música Popular Brasileira). Numa dessas ocasiões, Hermeto Pascoal era a estrela.
No dia do espetáculo, coloquei a minha melhor roupa e perfumei-me. Fui do alojamento para o Teatro Procópio Ferreira, que fica do ladinho da rodoviária. Uma caminhada de uns seis quilômetros. Hermeto subiu no palco com a Orquestra Iteberê. Harmonias dodecafônicas. Sons estranhos. Outros da natureza, do universo. Ele tocou "parabéns pra você" com água na barba. Vi essas bruxarias. Fora os ritmos brazucas. O mundo era analógico, mas o alagoano estava no futuro.
No final, Pascoal chamou todos para o palco, formou-se uma ciranda. Ele compôs uma música, ao vivo. Tomei coragem e fui com o meu trombone baixo. A campana era enorme. Estrábico, o albino me fitou e proferiu: toca sol, sol, sol, sol mais longo, sol mais curto.
- Com esse tamanho de trombone você é muito audacioso, venha na humildade, disse o bruxo.
Toquei o sol rachando, no ritmo, fora do ritmo, rodando, na ciranda, no mundo. Hermeto estava com uma camiseta florida. Ele gostou do sol, e também desgostou, porque toquei muito forte. Mas alguns momentos foram de sussurros. Assoprei um solo de uma nota só. Sol, sollllllllllll, sol, só, sol, um grito de sol. O maior artista havia contado a melodia, e a harmonia. O sol era a tônica, a base do acorde.
Desci do palco. O show acabou. Hermeto foi embora deste plano. Neste sábado (13), o mago começará a tocar por outros palcos e compor outras músicas, pelo cosmos. Vai chamar outros de audaciosos, para tocar somente a nota sol, o maior astro entre as estrelas, que a tudo irradia e nos dá energia para fazer sons e músicas.
O que ele escreveu, nas partituras, está no por aí, nos ares dos instrumentos de sopro. Berimbau. Meu maior momento como trombonista foi tocar com Hermeto Pascoal. Acredito que a apresentação foi registrada, em vídeo, como lembrança.
Voltarei a tocar, mas sem a poética de ter essa criatura e criador na terra. Tristeza. Sol, soolllll, sol, sollllll, solllll. sosso, solll. A quarta posição no trombone de varas, e a força dos pulmões, mais a embocadura e sol pela vida!!! Gratidão pelo momento, Hermeto.