O homem é essencialmente mau. A nobreza de caráter, altruísmo, abnegação e civilidade são qualidades encontradas em raros humanos, especialmente nos momentos de aflição e escassez. Em minha vida, de verdade, senti essas características com profundidade na minha avó Maria e no professor Gilberto Radicce, lá em Cesário Lange, e mais ninguém.
Nesta tragédia humanitária em razão das enchentes, no Rio Grande do Sul, com milhares de desabrigados e centenas de mortos, há aqueles preocupados em ganhar dividendos políticos, foram os que roubam e estupram no meio do caos. A miséria humana é real.
No século 17, o filósofo inglês Thomas Hobbes, num clássico do pensamento ocidental, que lançou as bases dos estados modernos, o Leviatã, acertadamente escreveu que “o homem é o lobo do próprio homem”. Para o autor, a existência do Estado é fundamental. Caso contrário, o que iria prevalecer seria a lei do mais forte, as injustiças e a barbárie.
Por exemplo, em terras gaúchas, na calamidade, bestas feras estão cometendo estupros nos alojamentos dos desabrigados; há aqueles que pilham nas ruas tomadas pela água barrenta, e há ainda figuras execráveis como Pablo Marçal, com coragem para subir em pilhas de cadáveres, em forma de palanque, para anunciarem que são o Messias. Em tais situações, somente o Estado para regular e organizar a sociedade. Por tais motivos, a ideia de estado mínimo sempre é ridícula.
Para evitar o aumento do preço do arroz, já que parte das plantações foram afetadas, o governo federal autorizou a importação do cereal. Caso contrário, especuladores iriam, intencionalmente, retirar o produto dos mercados, para que houvesse falta. Na sequência, com aumento da demanda e a falta nas prateleiras, o preço subiria. Haveria aqueles que iriam lucrar muito. O grão chegaria muito mais caro na mesa dos brasileiros. Não existem limites para a devassidão, quando se fala de dinheiro, no capitalismo.
O bicho homem é assim, aproveita-se dos mais fracos quando há oportunidade, procura o lucro nos tempos de crise e é capaz de matar o outro por um pedaço de pão. Primo Levy, judeu sobrevivente de um campo de concentração, no livro “É isto um homem”, aborda a desumanização em situações extremas. Um homo sapiens é capaz de negar comida para uma criança, dependendo do contexto, narra o escritor italiano.
Além disso, o autor demonstra como podemos ser incrivelmente mesquinhos com figuras da mesma espécie. “A civilização é só uma poeirinha, que na primeira oportunidade pode ser apagada”, certa vez me disse o professor Gilberto Radicce. Por fim, na torcida para que o Rio Grande do Sul, de tanta cultura, riqueza, beleza e capacidade, logo se recupere, apesar dos pesares.