Com falso moralismo e hipocrisia, a Câmara de Campinas instaurou uma CP (Comissão Processante) contra a vereadora Paolla Miguel (PT), na sessão de quarta-feira (17). A parlamentar apoiou o movimento Bicuda, realizado no final de semana em Barão Geraldo, com recursos financeiros de emendas de seu mandato. No palco, mulheres transsexuais fizeram performances consideradas “imorais”, especialmente para o horário e local, uma praça pública.
Obviamente, seria razoável que todos os eventos patrocinados pela prefeitura passassem por algum tipo de classificação etária. Trata-se de uma medida necessária para evitar que crianças e adolescentes estejam em ambientes inadequados.
No entanto, a abertura da CP contra Paolla Miguel é, sim, uma manifestação de racismo estrutural e do preconceito contra a comunidade LGBT. Explico: a Bicuda existe há 15 anos, e sempre teve apoio do Poder Executivo. Mas nenhum prefeito nunca foi responsabilizado por qualquer suposto ato libidinoso ocorrido no evento. Importante salientar que a prefeitura forneceu o espaço e parte da estrutura. Mas qual motivo somente Paolla é culpada? Aliás, existe alguma culpa e culpado? Ou trata-se apenas de perseguição política, racismo e preconceito?
Se fosse um homem branco e hetero que tivesse apoiado com emendas parlamentares o evento, com certeza, não haveria a CP, e muito menos essa gritaria. Além disso, conservadores de extrema-direita querem aproveitar o ano eleitoral para ganharem holofotes. Afinal, pautas sobre costumes e gênero sempre rendem votos, adesão e visibilidade nas redes sociais, especialmente quando tais questões são tratadas com base no ódio, ignorância e exclusão de minorias.
A CP também mira na desqualificação do PT (Partido dos Trabalhadores). Pedro Tourinho, representante da sigla, deverá estar no segundo turno contra o atual prefeito de Campinas, Dário Saadi (Republicanos) na disputa pelo Palácio das Andorinhas. Bater em Paolla, com uma pauta de costumes, significa desqualificar o principal nome da oposição.
Por fim, Paolla está ganhando muita visibilidade com a polêmica. Eleitores progressistas, naturalmente, vão tomar mais conhecimento da combativa e articulada vereadora. Haverá grande mobilização em torno da defesa da parlamentar. Não à toa o entorno da Câmara estava lotado, todos em apoio à corajosa mulher negra. Tal como o deputado estadual do Paraná, o proeminente Renato Freitas (PT), Paolla poderá sair muito maior, em termos políticos, dessa CP. Para isso, a petista precisa fazer do “limão a limonada”. Competência para isso ela tem, e de sobra.