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História

Campinas e seus dois Presidentes

Leia o texto do historiador Paulo Ricardo

05/01/2019 13h11
Por: Zatum Notícias
Fonte: Paulo Ricardo Silva

Entre vivas e saudações de início de ano, a notícia da posse no novo Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro é, sem sombra de dúvidas, predominante entre as conversas não apenas nas minhas redes sociais na internet, mas também – acredito - em todas as conversas. 

As mídias sociais, estruturadas sob seus algoritmos nem um pouco aleatórios, transformam eventos protocolares em verdadeiros sucessos de bilheteria. Detalhes dos mais variados, não percebidos de imediato, começam a surgir à medida que os internautas passam a analisar e escrever suas impressões sobre a cerimônia de posse do novo Presidente. 

Carregando nas tintas, opositores do atual Chefe do Executivo tentam fortalecer a versão a que o evento foi um verdadeiro fracasso, isso devido ao número menor de pessoas presentes em relação às estimativas iniciais. Denunciam ainda, a quase exclusão do gênero feminino na composição ministerial do novo governo: duas mulheres em meio a duas dezenas do sexo masculino. 

O campineiro Campos Salles (Crédito: A Provincía)

 

Aliados, por outro lado, não menos ferrenhos na defesa dos seus pontos de vista, rebatem, contra-argumentando acerca do ineditismo do discurso feito em libras pela Primeira-dama da República, Michelle Bolsonaro, incluindo, assim, na cerimônia de posse presidencial um público quase sempre esquecido.  

Deixando as polêmicas de lado, como profissional da área de História, o acontecimento que chamou atenção diz respeito à naturalidade do Presidente recém empossado. Apesar de ter construído a maior parte da sua vida pessoal e política no vizinho estado do Rio de Janeiro, Jair Messias Bolsonaro é natural do interior paulista. Nascido em Glicério, pequeno município do sudoeste paulista, foi registrado em cartório na cidade de Campinas. A mudança do interior paulista para o Rio teria se dado em virtude da carreira nas forças armadas. Ingressou na Escola Militar das Agulhas Negras (AMAN), conceituada escola de formação de oficiais do Exército, localizada na cidade fluminense de Resende, estado do Rio de Janeiro, de onde saiu formado paraquedista.

“Os acontecimentos são apenas a superfície do oceano da História”: defenderam os historiadores Fernand Braudel e Lucien Febvre. Em plena Avenida Campos Salles, centro bastante movimentado da metrópole campineira, cercada por seus prédios e monumentos históricos em acelerado processo de degradação, guardiões de um importante período da história da cidade e do Brasil, atento para o fato de que o então Capitão reformado do Exército, agora empossado Presidente da República Federativa do Brasil, não é o primeiro Campineiro a assumir o posto de governante máximo do país. 

Há 121 anos atrás, o advogado Manoel Ferraz de Campos Salles, o mesmo que dá nome a importante via da cidade na qual possui um imponente monumento em sua homenagem, muito mal cuidado por sinal, situação não muito diferente da maioria dos monumentos espalhados pela cidade: além de homenagem a algum personagem ilustre da nossa história, servem de pista de pousos e decolagens a pardais, pombos, urubus entre outras espécies de aves nativas da fauna campineira. 

Diferentemente da tradição atual, a posse do presidente eleito acontecia no dia 15 de Novembro, data da Proclamação da República do Brasil, momento em que o Brasil rompe com a Monarquia e passa a adotar o Regime Republicano de Governo, mudança adotada mediante atuação forte do Partido Republicano Paulista, agremiação política composta pelos ricos cafeicultores da qual foi filiado Campos Salles. 

Alçado à cadeira presidencial em 15 de Novembro de 1898, momento de grande riqueza e esplendor da cultura do café no Brasil, concentrada principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, o Brasil de Campos Salles, atraía pessoas de várias partes do país e fora dele. Recém abolida a escravidão, os ricos cafeicultores paulistas, com grande ajuda do governo, passaram a incentivar a vinda de imigrantes de outros países. Italianos, alemães, poloneses, eslavos migram aos milhares para o interior paulista e a região sul do Brasil. Além de mão de obra, esses imigrantes tinham também a missão de “embranquecer” a população brasileira, composta majoritariamente por descendentes de africanos.

A imigração, pelo menos de europeus, era muito bem vinda na conjuntura política do Brasil à época do Presidente Campos Salles, diferente da situação atual. Ao contrário do final do Século XIX, a imigração constitui um dos mais graves problemas humanitários em todo mundo. Milhões de pessoas são expulsas dos seus territórios devido à falta de alimentos, condições mínimas de vida, conflitos religiosos, guerras, entre outros. Para agravar ainda mais a situação dos migrantes, os países têm fechado suas fronteiras com objetivo claro de barrar a entrada dessas pessoas. 

Países Europeus, Americanos, tem tomado medidas radicais com vista a impedir a chegada dessas pessoas em seus países. Caso emblemático é o dos Estados Unidos, que aprovaram a construção de um extenso muro na fronteira com o México, porta de entrada para vários imigrantes da parte central e sul do continente. Declarações do atual presidente dão conta do alinhamento do Presidente Bolsonaro. Notícia do portal IG (https://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2019-01-02/bolsonaro-imigracao.html) de 02 de Janeiro de 2019, dão conta de uma reunião entre o novo presidente brasileiro, em que se teria discutido a saída do Brasil do Pacto Global Sobre Imigrações, acordo do qual somos ou éramos signatários, ferindo assim a imagem e tradição histórica do Brasil, formado a partir de uma substancial contribuição cultural dos imigrantes enraizadas na cultura brasileira. 

Além de naturais da mesma cidade, os dois presidentes campineiros representam uma mudança de paradigma na condução da política nacional. A chegada ao poder de Campos Salles em 1898 representou a sobreposição dos valores republicanos sob a autoridade das Forças Armadas. Não custa lembrar que logo após a queda da Monarquia, os dois primeiros governos foram liderados pelo Marechal Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, ambos oficiais militares. Paradoxalmente, o Governo Bolsonaro devolve aos militares, em certa medida, a influência perdida desde 1985, com o fim do Regime Militar iniciado em 1964. Desde Prudente de Moraes, passando pelo governo Campos Salles, tivemos um período de grande estabilidade política, rompida apenas em 1930, com a chegada de Vargas ao poder. 

Campos Salles e Bolsonaro são apenas dois exemplos de protagonistas na História do Brasil, oriundos de Campinas. Um simples passeio pelas ruas e avenidas da região metropolitana nos colocará diante de histórias fascinantes, protagonizadas tanto por integrantes de grupos sociais privilegiados, quanto por grupos sociais historicamente marginalizados, mas isso será assunto para textos posteriores. Ao refletir sobre esses dois personagens importantes para a História da região de Campinas, lembrei de uma observação, sempre contada de forma jocosa, de um dos meus professores de faculdade. 

Sempre que vinha de São Paulo para Unicamp contava ele, começou a chamar sua atenção, o fato das placas das rodovias que o traziam a Campinas, sinalizarem de forma curiosa, concomitantemente, a indicação de chegada à cidade e, logo abaixo, a direção a seguir rumo ao interior do estado. Este simples detalhe parecia indicar para ele, o quanto à cidade não queria ser associada a adjetivos, que de alguma maneira a colocassem numa posição subalterna ou coadjuvante em relação à capital. A trajetória destes dois personagens, vivendo em épocas distintas, podem ser indícios dessa verve campineira aos holofotes da história.     

P.S. Para aqueles que quiserem saber mais sobre um dos filhos ilustres da cidade, além de visitarem a estátua, localizada na via que leva o nome do presidente campineiro, Avenida Campos Salles, altura do número 185, centro de campinas. Tem ainda, o Centro de Letras e Artes de Campinas, CCLA. Possui uma série de documentos doados pelo próprio Campos Salles, em 1906: livros, objetos pessoais, etc.. Para saber mais acessem o site: http://ccla.org.br/museu-campos-salles/. 

Sobre o Presidente Bolsonaro não temos maiores informações. Indico o site da Biblioteca da Presidência, lá tem uma pequena biografia sobre o atual presidente e ex-presidentes do Brasil. http://www2.planalto.gov.br/. 

 

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